sábado, 2 de abril de 2011

ELIZABETH TAYLOR (1932-2011)


"Tenho o corpo de uma mulher e a sensibilidade de uma criança"

"O problema de pessoas que não têm vícios é que normalmente elas têm virtudes bem irritantes"

"Sou uma sobrevivente. Um exemplo vivo do que somos capazes de enfrentar e ainda assim sobreviver"

"Sempre admiti que sou comandada por minhas paixões."

"Quando as pessoas dizem 'ela tem tudo', eu respondo o seguinte: 'eu não tenho o amanhã"
E.Taylor

E Liz se foi como uma estrela . A estrela que era. Devo confessar que às vezes nem pensava se Liz estava viva ou morta. Mas a tinha sempre como viva.Viva dentro de mim. Devo confessar que com Marilyn Monroe aprendi a sedução. Um pouco com Rita Hayworth em Gilda. Mas com Elizabeth Taylor aprendi tudo sopre paixão e amor; amor e paixão. Um homem aprende com as mulheres, às vezes, muito mais que com os homens.
Ela era diferente. Às vezes ela mesma, por que sua vida foi vivida intensamente. Liz amou, bebeu , se drogou, adoeceu, sobreviveu e se foi... Mas sempre esteve com os verdadeiros amigos, muitos deles gays como Montgomery Cliff, Rock Hudson, James Jean entre tantos. Liz militou, angariou fundos e mundos pela AIDS, a primeira grande voz a se fazer ouvir.
Liz era linda, não era loira, os cabelos nunca passaram os ombros e teve os olhos e os diamantes mais lindos do mundo.Foi a primeira super star de Hollywood a faturar um milhão de dólares para protagonizar a super produção Cleopatra, onde conheceu o amor de sua vida.
Liz enchia a tela com sua beleza e seus olhos.Beleza que muitas vezes a impediu de provar a grande atriz que era.
E Liz era acima de tudo parecida com minha mãe. Talvez por isso.Muito por isso.Não que minha mãe tenha os olhos de Liz, é um parecer talvez só para mim.
Recentemente fui a Nova York e assisti The Milk train doesn’t stop here anymore de Tennesse Williams, que Liz filmou com Richard Burton com o título português : O Homem que veio de Longe. O filme foi um fracasso. Liz faz Flora que esta à beira da morte e recebe a visita de um homem. Mas ela esta tão linda que é impossível assistir o filme, que revi, e crer que uma mulher com aquela beleza possa estar à beira da morte. Este foi seu último filme que revi.
Não me lembro precisamente qual foi o primeiro filme de Elizabeth Taylor que assisti. Misturam-se Cleopatra, a Maggie de Gata em Teto de Zinco Quente, Katarina de A Megera Domada, Angela de Um Lugar ao Sol, Catherine de De repente o último verão ou Leslie de Assim Caminha a Humanidade.Sei que assisti todos os seus filmes até Lassie em que ela faz a Priscila.Todos eu certamente revi e revejo, algumas vezes.
Um dos que mais gostei e que se tornou um dos filmes de minha vida foi Quarta-feira de Cinzas em que ela faz Barbara; uma mulher que vai a Suiça para fazer plástica e recuperar o amor do marido que a trocou por uma jovem. Ela está linda, magnífica e a história é memorável.
Claro têm a Gloria de Disque Butterfield 8 e a Martha de Quem têm medo de Virginia Wolf que lhe renderam Oscars, em que ela supera a beleza e mostra seu talento.
A última montagem que assisti de Quem têm medo de Virgina Wolf do Albee foi em Copenhagen e no dia seguinte comprei o DVD , por quê eu precisa rever a Martha de Liz.
Liz me fez sonhar.Faz-me e me fará para sempre... Assim que soube que partiu para ser estrela no imensurável céu que nos aguarda.Juntei seus filmes para revê-los e para aprender e sonhar novamente com ela, que tinha uma beleza esplendorosa e talento arrebatador.
A mulher que toda mulher queria ser, que todo homem queria ter. A mulher que viveu como nenhuma outra. Li todos os jornais e revistas, as pequenas notas sobre seu falecimento e recordações. Histórias sobre os seus foulards Hermès.Sobre diretores de revistas que a adoravam e a faziam capa das mesmas quando faltava uma história. Por quê ela sempre tinha uma história, um quê, um senão, um porém . Havia sempre algo há dizer de Elizabeth Taylor, sem que ela se esforçasse.
Atriz cujo carisma carregou multidão aos cinemas.Nascida e fabricada na era dourada de Hollywood, quando ainda, era o lugar em que lendas materializavam sonhos. Fábrica de ilusão. Elizabeth Taylor foi estrela e protagonista dos ideais máximos da humanidade de uma era: de beleza , de riqueza , de sucesso . O novo século traz um céu cada vez mais enegrecido.Certamente não existe quem nos faça aspirar a eternidade , em lugar da fama efêmera. Em 23 de março, Hollywood perdeu sua derradeira estrela.

"Pessoas que me conhecem me chamam de Elizabeth. Odeio Liz"
Eu não a conheci pessoalmente , eu a adorei e por isso me permito chamá-la carinhosamente e com admiração de Liz. E a frase, que para mim, resume a estrela, foi a do diretor Mike Nichols:
"O choque de Elizabeth não foi apenas sua beleza. Foi a sua generosidade. Sua risada gigante. Sua vitalidade. Ela é singular e indelével nos filmes e em nossos corações."
Segundo Camille Paglia:"Elizabeth Taylor foi uma protofeminista,"com poder sexual que o feminismo tentou destruir", foi uma colossal deusa pagã.No entanto , para toda uma geração, nossas vidas foram impregnadas por ela, que despertou em nós emoções as mais profundas". 


quarta-feira, 30 de março de 2011

OS CAMINHOS DOS MAGOS



‘‘E vendo a estrela , alegraram-se eles com grande e intenso júbilo” Mateus 2,10

Voltando do litoral pela imigrantes congestionada com um infinito caminho de luzes vermelhas à frente e muita paciência . Estava com amigos alemães que moram em Lyon na França. Depois de horas, e já em São Paulo, mencionei por acaso que por não ser Natal , a avenida Paulista estava livre.
Minha amiga explicou que durante o natal, a decoração natalina na Paulista é de parar o trânsito. Um pouco exagerada, falou dos papais-noéis e dos presépios com os reis magos.
Para nossa surpresa , um deles perguntou : O por quê dos reis magos, se eles somente chegaram no dia 06 de janeiro, o dia de reis .Ficamos boquiabertos com a descoberta de uma fato banal e inquestionável, que tinha se perpetuado pela tradição em nossas vidas.
Devemos aos Magos a tradição de trocar ou oferecer presentes no Natal.Tanto que na Espanha, a troca de presentes se dá no dia 06 de janeiro.
No evangelho, os três personagens são citados somente por Mateus. São chamados de Magos , porque tinham grande conhecimento da astrologia, neste caso, sábios.Daí também a importância da estrela que os conduziram a manjedoura. Durante a idade média, o pintor Giotto (1301) , impressionado pela passagem do cometa neste ano, retratou-o numa cena natalina, e foi quando começou a devoção aos Reis, sendo perpetuado nos presépios italianos. Nesta mesma época, suas relíquias ( dos reis) foram transladadas de Constantinopla até Milão.Posteriormente, desde 1164, se encontram na catedral de Colônia , na Alemanha.
Belchior ou Melchior que significa”Meu rei é luz”, era o mais velho , é da Caldéia. Ofereceu o ouro em reconhecimento a realeza. Gaspar, “Aquele que vai inspecionar “, era o mais jovem e de uma região perto do Mar Cáspio, ofereceu o incenso em reconhecimento a divindade. Baltasar se traduz por “Deus manifesta o rei”, era mouro , com cerca de quarenta anos e partira do Golfo Pérsico, ofereceu a mirra , que simboliza a humanidade e o futuro sofrimento do redentor.
A crença tradicional é a de que Jesus foi visitado quando nasceu. Segundo as escrituras , foi no dia 06 de janeiro e por isso os reis magos ficam longe e ao lado do presépio.
Andreas nos contou que toda a vez que sua avó germânica montava o presépio . Os reis ficavam longe, muito longe e pouco a pouco ela os aproximava com o seu camelo . Muitas vezes, ele tentava aproximar, e ela furiosa dizia: Mas eles só chegam no dia o6 de janeiro, porque a pressa?
Sua avó morava em Stuttgart, e segundo ele ,a decoração de Natal se iniciava no dia 20 de dezembro e era guardada no dia 02 de fevereiro.Quando no Brasil , comemora-se o dia da Nossa Senhora dos Navegantes, ou das Candeias e em outros países, outras virgens são celebradas. Mas para os europeus germânicos é o dia em que se apaga a luz do Santuário.
Eu nunca imaginei que os reis chegaram no dia 06, mesmo sabendo do dia de sua festa. E mesmo tendo estudado em colégio católico apostólico e romano. Onde uma vez ,quando questionei a Ave-Maria , perguntando a madre por que se dizia:- Santa Maria , mãe de Deus e não de Jesus.E a madre me respondeu por que era assim....Tudo era assim!
 Até que uma das freiras me disse que era a representação de Jesus como parte de Deus e de sua divindade.Daí ,os costumes antigos, de chamar a esposa de mãe. A mãe de meus filhos.E até na psicanálise, o complexo de Édipo; no qual procuramos algo parecido as nossas mães, nas esposas e etc... mais isto já é outra história e não têm nada a ver com os Magos. 
Assim , meu presépio sempre teve os reis , que chegaram adiantados.Talvez pelo fuso horário ou pelo calor.Às vezes, até o menino Jesus , já ficava à postos, desde o ínicio, ali com os bracinhos abertos e sua aréola dourada.
No dia 06, dia de Festa de Santos Reis, guardávamos tudo, comíamos uva ou romã e fazíamos os pedidos para o ano. Muitas vezes, as chamadas folias de reis , uma tradição em Goiás, em que músicos fantasiados adentram nos lares, cantando em troca de comida, visitava nossa casa para trazer boa sorte e bênçãos. Tudo lembranças e tradição.
Atualmente meu presépio é temático, todos são negros.
Apesar de saber já tarde, por Andreas, o portador da sapientia e desilusão, que os reis chegaram no dia 06 de janeiro. Os reis de meu presépio continuarão a chegar antes, e a se postar do lado, sempre ali , por perto , com os presentes nas mãos , e de olho no menino Jesus.
No seu dia, eles partirão como sempre , deixando para o ano , sempre um pouco de esperança, nas sementes secas de romã e nos segredos dos pedidos .
Já em casa , depois de horas de trânsito, e agora, bêbados de vinho; davámos muitas risadas e lembramos de outras histórias parecidas, que nos foram escondidas , ou contadas às avessas. Ainda, com as milhões de luzinhas vermelhas da Imigrantes impregnadas na retina , acho que até conseguimos ver ao longe, como os Magos, a estrela de Belém.

Arte:Fabricio Matheus

sábado, 19 de março de 2011

CIANO



Tive um sonho azul. Um tom de azul quase inexistente, azul verde-água em flor de tão azul que era quase verde. Tinha um brilho forte, reluzente purpurina-azul-pavão. E uma transparência em direção ao verde ciano que dava uma profundeza especial a este tom mágico e claro de um azul que azulava em tons de anil degrade ao branco. Este tom de azul permaneceu em minha memória por tempos , que tive a sensação de já o tê-lo esquecido num canto perdido da lembrança... Relógio veloz do tempo, que não espera e passa como um sopro de vento fresco com aroma de verde mata a tocar de mansinho em mim.
Certa vez, ao passar por uma loja de animais, entretive-me com os peixes e fiquei viajando pelos aquários a observar a leveza de peixinhos coloridos. Os mais diversos, a flutuarem na maciez da água, dançando como bailarinos por entre as pedras e plantas que decoravam os aquários. Radiante encontrava-me frente a um espetáculo simples e singelo. Minha memória buscou vasculhando na lembrança passado-infância, que passava rapidamente como um filme; no qual um garoto, eu, pequeno e criança, brincava com peixinhos de um aquário primário, sem oxigênio. Nesta época, minha mãe era diretora de um grupo escolar perto do qual passava um córrego onde costumava fugir para nadar como nos filmes do Tarzã.
O tal córrego, à certa altura, se contorcia numa curva quase perfeita. No lado direito da margem havia um cubo de cimento, que servia de tanque para lavadeiras. Na margem esquerda , havia um bambuzal e uma meia-lua de areia que parecia uma praia encantada, a minha praia encantada. Traçando uma linha em direção ao cubo de cimento , havia um degrau de pedras naturais, quase uma pequena cascata, que formava uma modesta queda d’água , que vinha da nascente em direção ao rio que cortava minha cidade como um espelho, tornando mais encantado para mim este lugar.
Ali, que marquei meu primeiro encontro de amor com minha primeira namorada, e ela faltou!
Deste mesmo fio de água eram colhidos com peneiras pequenos lambaris, cascudos e outras espécies , que os meninos do local ofereciam de presente para minha mãe. Estes iriam povoar o meu aquário, meu pequeno laboratório de experiências mil. Alimentava-os com pequenas bolinhas de miolo de pão. Era freqüente amanhecer um peixinho boiando ou fora do aquário. Com estes comecei minha primeira experiência médica.Neles exercitava a arte cirúrgica com maestria ao utilizar afiados bisturis, que eram as facas de serra para cortar pão e anestesiá-los com seringas de plásticos para rechear frangos. Acreditava na minha sapiência e realmente me esforçava para trazê-los novamente à vida. Enfim, sucumbia-me ao destino e aceitava suas mortes. Colocava –os em caixinhas de fósforos e os enterrava em um pedaço especial do quintal que chamava: - cemitério dos peixes. Após enterrá-los e cobrir-lhes com terra, colocava uma pequena cruz de palitos de dentes e uma florzinha de laranjeira ou jaboticabeira.
Outras vezes , os habitantes do aquário eram os dourados peixes japonês, laranjas, outros pretos... e todas as vivências com peixes foram se passando veloz e novamente pela minha memória. Os peixes comprados no mercado, expostos juntos, uns aos outros, com os olhares fixos e congelados. As pescarias que fui com meu pai, onde eu era o colocador de redes oficial. Pulava nos rios e à medida que mergulhava ia ao longo esticando uma enorme rede de fino náilon. Depois de arrastada, tamanha alegria era vê-la coalhada dos mais diversos peixes. Ainda no barco, separávamos pela raça. Particularmente, adorava atiçar as piranhas para vê-las mordendo semi-mortas, enfurecidas e desordenadas já fora d’água.Era um ódio bonito, um reflexo nervoso. Era a fúria, a luta com a morte que se aproximava lenta e serena.
Uma vez de férias na casa de minha avó, fomos comprar peixes na Cachoeira de Emas para um cozido do almoço do dia seguinte. Na leva dos peixes , tinha um mandi, que se esforçava bravamente para respirar e manter o sopro de vida que ainda pulsava em seu corpo de peixe. Meu primo e eu, rapidamente o transferimos para uma bacia cheia de água e tornamos seus amigos. Ficávamos horas a conversar com o mandi, que tinha um nome que já não me lembro. Ele ficava nadando em círculos contínuos , formando um redemoinho de ondas na superfície da água. Ao nosso menor descuido, fomos encontrá-lo assado sobre a mesa posta. Nossos olhos encharcaram de lágrimas ao ver nosso mandi coberto com um molho de extrato de tomate e cebola, e a boca aberta como se quisesse gritar algo que nunca descobrimos. Recusamos a comer naquele dia, a sentar na mesa onde se devorava nosso amigo.
O segredo do mandi se dissolveu como um papel molhado em minha memória. E ao puxar as lembranças como um ilusionista a retirar lenços coloridos de uma caixa mágica, lembrei de minha professora do primário que certa vez passou uma lição de casa: Um peixe para colorir. Minha mãe sugeriu para cobrir o peixe de escamas. Fui colando uma a uma. Dando ao peixe um tom prateado de cinza que percorria do azul ao branco. O peixe ficou tão lindo que como por encanto tornou-se vivo e começou a soltar lentas e leves borbulhas. Ao inundar-me delas saiu nadando para não sei onde. Talvez para o mundo mágico do fundo das águas, povoados de seres misteriosos, sereias encantadas, polvos, arraias... e todos os outros seres carregados de encanto que fascinam e seduzem as crianças. Tudo isso aconteceu depois que o peixe colorido e prateado ficou exposto para meu orgulho na escola.
De repente, o tom de azul sublime do meu sonho, tornou a azular meu pensamento, como recordações trazidas pelo aroma de um perfume. Fixei meu olhar num peixinho que tinha aquele azul indescritível quase imperceptível que havia sonhado.Encontrei-me neste momento num estado de inércia e deslumbre, como se nada pensasse, e tudo o já pensado à pouco, passasse ligeiro como apertar a tecla “foward” de um gravador. Todos os peixes que passaram pela minha vida, inclusive aquele que colei escamas e que saiu a nadar, misturavam-se com meu sonho azul naquele peixinho Betta que ficava sozinho em seu pequeno aquário.
O meu pensamento era um só: Este peixe têm que ser meu. E na indecisão constante que povoa o universo de um aquariano com ascendente em peixes. Confundiam os conflitos de meu cotidiano urbano, o progresso veloz que reduz o tempo, o dia-a –dia cada vez mais máquina a nos transformar em seres petrificados, mecânicos e práticos, necessário para acompanhar o desenvolvimento desenfreado que nos devora e consome nossos mais ingênuos sonhos. Será que terei tempo para cuidar de um peixe? Mesmo que seja um peixe com aquele tom de fantasia azul...
Dirigi-me a vendedora com ânsia voraz de sanar minha ignorância em relação à piscicultura ornamental. Informei-me sobre cada detalhe à respeito daquele pequeno ser aquático , teleósteo da família dos pantodontídeos, com o pequeno aquário e o dito junto ao peito para que ninguém o levasse.
Descobri que este tipo de peixe permanece sozinho em um aquário, não necessitando de aparelhagem complexa como termômetro, respiradores, oxigenadores e etc... pois os mesmos sobem à superfície, soltam uma bolha e aspira o ar da bolha, reciclando seus gazes respiratórios. Caso veja sua imagem ou outro semelhante , ele se expande abrindo as barbatanas e a cauda, insufla as brânquias e fosforece o tom mais intenso, carregado de mistério de sua cor particular: infinito, de uma irisdecência tempestuosa de tanta cor.
Se posto com outro macho da mesma espécie, eles digladiam até a morte de um, coroar a vitória do outro. A fêmea, menos atraente, deve permanecer com o macho somente para a fecundação e até a desova, pois ao findar este período, o convívio com o parceiro sela um trágico destino à mesma.
A sua essência é de uma solidão tão intensa, quase assombrosa , que tem um leve tom de azul. Quanto mais me doía a solidão estarrecida daquele ser, tanto mais o desejava. Nele via-me frente a um espelho, a observar todo o azul profundo de minha própria solidão.
Naquele pequeno espaço-mundo, limitado por quatro planos de vidro e preenchido de água, estava um ser que vivia o azulão impetuoso de sua solidão. Rodeado por um tudo de objetos naquela loja, aquele peixinho era um pontinho cintilante a refletir minha vida tão só...seu aquário era o meu apartamento.
Olhava os outros peixes semelhantes e com outras cores tão lindas e admiráveis quanto aquele azul cianofíceas, certamente a buscar um consolo que me envolvesse fazendo desistir daquele que tinha o tom da cor do meu sonho.
Do peito, trouxe seu aquário ao horizonte de meus olhos.Subitamente, ele aproximou-se do plano de vidro que estava defronte à direção do meu olhar e me encarou. Seus lábios mexiam suave como lábios de peixe que eram. Às vezes saiam borbulhas que subiam lentas de leves pertubando a paz estática e estável da película d’água e explodiam no nada do ar. Fiquei pasmo a contemplá-lo.
Seu rosto era estranho, e por ser pequeno, difícil de notar os detalhes que passavam desapercebidos aos olhos comuns que haviam de achá-lo sempre com um rosto pisciforme e sem graça. Mas seus traços, pequenos seixos , rudes, ásperos, reuniam minúcias dispersas num todo que o assemelhavam a um ser pré-histórico. Seus lábios eram grossos, carnudos. Sendo a porção superior, maior , e com concavidade voltada para baixo, deixando a mostra um tico de lábio inferior. Entreabriam-se juntos num círculo maior que diminuía gradativamente como um funil.
Os olhos , duas pérolas negras ilhadas por um dourado com riscos de prata que se tronava azul inferiormente, um enigma. Sob as narinas , uma protuberância pteriforme, que parecia ter sido esculpida em uma pedra castanho-avermelhada coberta de liquens, o que lhe conferia um aspecto sombrio, obscuro.
Olhamos por tanto e pouco tempo que a vendedora perplexa já não entendia nada, dando-me por louco, alucinado; pois, quando dei por mim, estava desnorteado a movimentar meus lábios e a soprar o ar como fazia o peixe.
Este peixe sou eu, pensava , e findei por instantes meu desvariu, para concluir o ato da compra.
No caminho para casa fui pensando um nome para aquele peixinho: - Azul, Safira, Esmeralda, Blue.... e como possuía um tom de azul quase verde, lembrei das cianofíceas e batizei com o nome de Ciano, que soava semelhante a Cyrano, trazendo-me a lembrança um personagem que viveu sua solidão repleto de amor a transbordar d’alma. Assim era eu, assim era o peixe; seres só, de alma azul. Seres indescritíveis e suaves como nuvens macias de algodão que desaparecem lentas.À medida ,que surgem tímidas no céu, as estrelas a polvilharem de brilho a noite de luar, que prateia as cabeleiras recostadas dos amantes: Nossa solidão era irmã-gêmea da poesia e sufocada de tanto , tanto sentimento...
Coloquei Ciano sobre o freezer, na sal de jantar do meu apartamento. Algumas vezes sua solidão parecia aumentar, tão pequeno e solitário era estar sobre o freezer cercado de paredes azulejadas que não eram nem azuis, nem cinzas, mas não deixava de ter estes tons.
Ao olhá-lo, tinha certeza de que ele também observava tudo, e que sabia da existência da mesa, cadeiras, geladeira, armário e até do telefone que se encontrava no recinto ao lado do freezer e quase nunca tocava.Cada vez, minha certeza aumentava, a ponto de crer que ele entendia, ou melhor, sabia o que eu falava e com quem ...
Passava horas a observar seus movimentos flutuantes naquele pequeno espaço. De repente, subia à superfície à procura de ar e voltava leve novamente ao fundo. Olhava-me tão profundamente que ao olhá-lo estava a refletir à medida que flashes de minha vida explodiam, como bombas de São João, ou fogos de artifícios coloridos e brilhantes a romper a escuridão da noite na massa cerebral de minha memória sabor de mel.
De súbito iniciava movimentos rápidos, rasantes, às vezes desordenados, percorrendo velozmente o pequeno espaço que o continha, como se explorasse milímetro por milímetro, para depois voltar a flutuar parado ou reclinar-se nas brancas pedrinhas que forravam o chão de seu espaço.
Outra vezes, ficava a brincar com ele. Pegava um espelho e o fazia refletir. Ciano, ao espelhar-se achava que era um inimigo e não suportando sua própria imagem, alastrava-se num tom mais azul que o seu normal, tremeluzindo em movimentos serpentiformes pro toda a área refletora. Suas guelras formavam um plano perpendicular com seu corpo esguio, e seu pequeno pulmão aparecia róseo, vermelho, incandescente como meu coração quando estou apaixonado.Nestes momentos, eu começava também a tremular como Ciano.
Parecia que me olhava intensamente, e todos os meus medos, meus anseios estavam ali a olhar-me de frente. Retornava ao real abrindo devagar as pálpebras , até expor meus olhos molhados de lágrimas. .. eu tinha certeza que os olhos de Ciano, como os meus, também estavam em lágrimas, que se misturavam com o líquido fluído que o cercava. Respirava!irava rapidamente o espelho, e ele perdido, encolhia-se devagar, lento , ofegante num canto do aquário e adormecia como eu.
Encontrava-me constantemente numa inquietude sã a inventar maneiras de o distrair. Colocava o espelho sob o aquário com a face espelhada voltada para o fundo. Ciano permanecia imóvel, pois peixe não olha para cima. Peixe não têm céu...
Apagava as luzes da sala de jantar e acendia uma pequena lanterna de baixo para cima, de tal forma, ao refletir no espelho, fazer brotar um foco de luz que atravessava a água do aquário iluminando-o como um palco encantado. Apertava o descanso do telefone, que tocava suave, e da caixinha de música soava o tema de amor de “Romeu e Julieta”. Ciano, dissimuladamente, tornava-se mais e mais azul, como uma estrela azulada ou o azul brilhante das asas de algumas borboletas.
Azul tingido de uma beleza sublime, quase santa, cerúleo, e que se tornava mais belo ao estar iluminado e bailando sob refletores, quase voando como uma pluma a descer devagarinho no ar. Todo seu corpo dançava, suas barbatanas e seu rabo a ondular e movimentar mansamente a água que brilhava como mil diamantes e espalhar luzes e reflexos em todas as direções. Era pura arte, técnica e emoção em perfeito equilibrio, carregado de todos os sentimentos que nutrem as paixões e que tanto nos comovem na Arte.
Ao olhá-lo, eu lia poesia, prosa. Assistia cinema, teatro, ópera, televisão, balé. Estava diante de uma tela pintada por uma força de dimensões inatingíveis. Fechava os olhos e tentava na condição de pequeno mortal, imitar o que meus olhos viam trêmulos de afeto e emoção.
Cada vez que me aproximava dos movimentos de Ciano, e quanto mais o olhava, mais sua solidão me doía menos. Eu passará a compreender melhor o quão simples era o milagre da vida. Tão simples, como os movimentos, como a vida de Ciano. E ao compreender este simples e grande milagre, aos poucos, coloria de um outro tom de azul, minha vida, riacho d’água em direção a um oceano iluminado quase transparente de tom tão azul.
Incomodava-me o fato de alimentá-lo. A vendedora havia orientado para alimentá-lo somente após dois dias, ou a cada dois dias. Eu olhava atentamente o seu aquário, com águas enevoadas de um verde vago, indeciso, que não se deixava notar qualquer sinal de desfeito da sujeira que caracterizasse a geléia de artérias que era a sua ração. Sua alimentação, combinava idéias num raciocínio lógico, matemático até: Geléia de artérias que conduzem o sangue que oxigena os tecidos e permite a vida. Ciano alimentava-se de vida para viver... O meu desespero conjugava sentimentos de pai, mãe, irmão e amigo; aumentando cada vez mais por desconhecer suas necessidades vitais. Se estava ou não com fome? Olhava novamente a água , tentando iludir-me, mas sequer um cisco,modesto, podia ser notado por entre as brancas pedrinhas que atapetavam o chão do aquário.
Não resistindo a tentação que tanto me angustiava, peguei o pote de geléia de artérias que guardava na geladeira de frente ao freezer. Raspei um pouquinho com uma faca e coloquei no canto do aquário. As pequenas partículas iam caindo como chuvas e Ciano permanecia inerte, indiferente, sem se mover. Tamanha minha frustração, que se confundia num desalento pueril a torturar-me com inúmeras questões:- Será que ele não gosta mais de geléia de artérias? Será que venderam-me um produto estragado?Será que ele esta bem? Será que está doente e sem fome? Será que não gosta mais de mim?... Ficava olhando e conversando com Ciano, mas nada dele abocanhar as migalhas de vida. Ele permanecia igual, parado; às vezes descansando sobre as brancas pedrinhas , outras flutuando gracioso, delicado ou nadando de inesperado.
De vez em quando, voltava a brincar de espelhá-lo e ele estatelar aquele azul com sabor de felicidade. Ai me tranqüilizava. O mesmo Ciano dantes, pleno da mesma solidão cor de azul que lhe era peculiar.
De madrugada, acordei assustado, e corri para a sala de jantar. Lá estava ele a olhar-me com os olhos que faço quando estou faminto. Deslocava de impulso, um pulo à geladeira e pegava o pote de geléia de artérias. Raspava um pouquinho e colocava no canto do aquário, à medida que caíam , Ciano se refestelava com uma doçura, uma satisfação... Observava maravilhado sua mímica e expressão facial, às vezes, parecia que mastigava e logo após, como num sopro, lançava pequenos fragmentos que os sorviam posteriormente, expressando o melhor sabor do mundo. Outras, parecia fazer caretas homéricas. Era engraçado e doce observá-lo comer, pois todos os gestos e movimentos se harmonizavam, tamanha delicadeza e precisão e minúcia dos mesmos. Os olhares que ele fazia, como se estivesse incomodado, ou como a convidar para saborear a vida da geléia de artérias.
Uma vez, toquei de leve, com a ponta do dedo indicador, aquela gelatina de um marrom quase vermelho, e lambi com uma suavidade quase obscena e até que não achei ruim de todo.
Olhamos nos novamente e sorríamos como duas crianças lambuzadas de geléia de artérias, plenos de vida. .. Fiquei aliviado de felicidade de podê-lo alimentar. Era como saber que nada interferisse no seu meio, na sua solidão. E assim, eu o teria ainda por mais dois dias.
Mas logo, e de novo, me afligiam as dúvidas: Será que Ciano está comendo demais? E se ficar obeso? Não há espaço suficiente para exercitar e manter a forma. Poderá morrer de tanta gula ou indigestão?
Mas aos poucos fomos nos conhecendo, fui me conhecendo e conhecendo Ciano.Notei por exemplo, que ao levá-lo a fúria frente aos meus medos, quando o espelhava, ele retornava acelerado à superfície para respirar. Concluí que dispendia mais energia, assim , todos os dias o fazia insuflar o mais belo azul e soltar bolhinhas de ar que caminhavam até a margem do aquário e se agrupavam num canto , formando uma fímbria, como pérolas de ar.
Como um soprar , carregado de frescor do tempo que passa, fui convivendo mais pacificamente com minha solidão, meus medos. Cada vez mais , eu assemelhava-me a Ciano e ele à mim. Como se guardasse o segredo de minha vida dentro daquele peixinho azul.
Quanto mais eu vivia, mais poesia ressoava em melodia, como um som ao longe, de uma harpa mágica, tingindo em tons azuis aquele serzinho, o meu serzinho. Estavamos, mais e mais em consonância, tínhamos um diálogo que era só nosso, e nos entendíamos como ninguém. As perguntas que antes me atormentavam, aos poucos, foram esvaecendo como brumas e espumas de ondas do mar que a areia absorve.Conversávamos com os olhos no mesmo tom de cor.
Quando chegava perto do aquário olhava-o de cima, e ele vinha a tona como que a me saudar. Eu já sabia o quanto de geléia o satisfazia e quando. Extraordinariamente, Ciano tornou-se eu, meu espelho, minha alma, minha aura. Assim seus tons modificavam corando-se dos mais diversos azuis que existem, conforme meus diversos sentimentos e humores.
Ciano era minha amarga solidão que aos poucos foi se adocicando com a sua presença. Como se olhasse algo que de mim fugia. Uma dor que me doía e que agora doía menos. Ciano foi me ensinando com poesia e cor a ser feliz.
Jamais esquecerei o dia em que me descobri amando, enamorado, divino, inebriado de emoção com o coração palpitando à boca. Cheguei em casa cantando uma canção de amor, com o sorriso de orelha a orelha, e a inércia boba , quase infantil, cheia de pureza do ser apaixonado. Olhei-o com um brilho impetuoso , num olhar que ardia mais que o sol, e vi Ciano arrepiar-se num azul transcendental, imaculado. O mais doce e musical tom de azul celestial. Luzidio, quase transparente tom do azul mais azul dos azuis que há.
Ele me olhou certeiro, com o mesmo contentamento e certamente seu coração batia tão rápido e acelerado quanto o meu. Seu olhar era intenso, tão intenso, quanto o dourado que irradiava de meus olhos, mas continha lá num canto perdido de seu olhar uma lágrima quase invisível, que só eu podia vê-la e que se tornava mais clara quando eu fechei meus olhos.
Aquela lágrima tinha um misto de prazer e dor, tristeza e despedida, saudade, talvez. Mas se dispersou com o deslumbramento de alma em que me encontrava.
Adormeci exausto, cansado de tanto sentimento, sem nada sonhar, pois meu sonho agora era vivo e real. Eu amava. Estava amando e era correspondido. Não me sentia mais só. Agora eu dividia com alguém minha alegria, minha dor, minha vida...
No meio escuro da noite, acordei de sobressalto. Assustado, suando. Fui caminhando sem pressa até a sala de jantar. Logo avistei Ciano a transluzir sob a água, pairado a boiar sereno entre a bolhinhas de pérolas da superfície do aquário. Com os olhos estáticos, como o mundo visto de longe e com o olhar mais longe ainda.
Tirei-o delicadamente e o pousei sobre a mesa. Olhava-o com as mesmas lágrimas salgadas de mar que notei em seus olhos, e murmurava baixinho seu nome azul.
Estava sentindo não sei dizer o quê, que me doía de leve e profundo no meu coração, na minha alma, no meu ser. Fiquei a observá-lo minuciosamente como na primeira vez, e o seu tom de azul profundo foi tornando-se róseo luz, indecifrável, quase para um roxo, violáceo, purpúreo e suave . Mais suave ainda com um pouco de azul que aos poucos ia-se perdendo num branco quase prata. Penumbra com tons de cinza claro. Entre lágrimas de amor, os tons de cinza claro azulado, como mágica, foram perdendo aos poucos o azul. Lentamente ensombrecia. E o cinza claro , pouco a pouco tornava-se mais escuro. Tons de cinza escuro, aos poucos, quase negros, até anoitecer....

*Escrevi esta história em 92.

terça-feira, 15 de março de 2011

OS CREDORES



"No fundo, é isso, a solidão: envolvermo-nos no casulo da nossa alma, fazermo-nos crisálida e aguardarmos a metamorfose, porque ela acaba sempre por chegar".August Strindberg

"Ergueu as sombracelhas como se seus olhos perseguissem imagens fugidias do passado..."Arthr Schnitzler

Os Credores , uma tragicomédia naturalista de August Strindberg(1849-1912), escrita em 1888, continua um texto atual. Com uma nova encenação pelo Tapa, com direção de Eduardo Tolentino, têm no elenco afiado e maduro: - Chris Couto que vive a escritora Tekla, mulher moderna e independente que se separou de Gustav , personagem de Sérgio Mastropasqua e se casou com Adolf vivido por José Roberto Jardim. Com cenografia e figurino de Lola Tolentino. Luz e som de Jorge Leal.
O assunto da peça, os relacionamentos e a libertação da mulher, era o assunto da época. Contemporâneo de Strindberg, Ibsen escreveu A Casa de Bonecas em 1897. Inclusive o próprio Strindberg acusou Ibsen de plagiá-lo em sua peça Hedda Gabler de 1890, outra mulher independente.
Dizem que o dramaturgo inspirou-se em sua própria experiência ao escrever a história, ambientada em um hotel em Estocolmo. Strindberg era casado com a atriz filandesa Siri Von Essen, divorciada do barão Carl Gustav Von Wrangel. E como o personagem de Adolf , temia que a esposa votasse a amá-lo. Alguns críticos ressaltam que toda a obra de Srindberg é inspirada em suas vivências. Aliás o autor era plural, escreveu mais de 60 peças e mais de 30 obras de ficcção, viajou bastante, foi telegrafista, jornalista, teosofista, a doutrina que mistura a filosofia da religião com o misticismo, pintor, fotográfo e até alquimista. É por muitos considerado o pai da moderna literatura sueca. E influenciou uma geração de dramaturgos como Tennessee Williams, Edward Albee, Maxim Gorky, John Osborne , Ingmar Bergman e Eugene O’Neal e muitos outros.
Strindberg coloca em cena o homem moderno em conflito com seus valores, ele dizia e sentia que o verdadeiro naturalismo era uma psicológica batalha mental: duas pessoas que se odeiam de imediato e fazem um enorme esforço para dominar o mal que emerge como uma hostilidade quase mental e doentia e o que ele tenta descrever de forma imparcial e objetiva com o desejo de fazer da literatura algo similar a ciência.
As feridas de amor cicatrizam? Você já cobrou de alguém o que de bom e de bem você fez a esse alguém por amá-lo? Alguém já te cobrou por algo que te deu enquanto te amou?É impossível passar pela vida sem esses questionamentos... Ou pelo menos uma vez pensar se este alguém que esta ao seu lado ainda lembra ou pensa em outro?
Os segredos sabidos de outrem tornam mais fácil a conquista. Quantos amigos já trocaram confidências e histórias de amantes, e num outro momento o amigo está com a ex- amante do amigo. Ela por sinal feliz por estar com o homem certo que realiza seus segredos secretos.
 Parece banal assistir hoje a estas discussões , mas Strindberg escreveu e encenou. Até Woody Allen no filme Todos Dizem eu te amo com Julia Roberts usa uma história parecida, créditos de  Strindberg e Bergman.
Quantos amigos influenciaram o outro a deixar o amor de sua vida, pois este era o seu amor. Enfim , é do ser humano a Dúvida, a cobiça de amores, cíúmes  e outros sentimentos. E é exatamente isto que a peça trata, por isso atual.
A peça terá em breve uma nova montagem com um elenco global. Os Credores estão na moda. A encenação no Viga Espaço Cênico, vale a pena não só pelo texto, mas pelo jogo e a entrega do elenco. Tudo é muito simples, quase tudo passa desapercebido: da musica , a luz , figurino e cenário. São os atores em cena que fazem o brilho e a luz das palavras vibrarem em nossa alma.
Quando visitei a Suécia pela primeira vez. Estocolmo , estava em luto pela morte de Bergmann. Sua despedida se fazia no Teatro de Drama. Saí de lá e subi a alameda que conduzia a casa-museu de Strindberg. Fui conhecendo um pouco mais do cotidiano e do mundo deste autor. A sua escrivaninha, com as canetas tinteiro, seu quarto entre outros cômodos.A sala , alguns de seus desenhos e fotos de suas viagens, de algumas montagens, da família e etc... Eu via tudo lentamente, procurando apreender um pouco... . Mas a tristeza da perda daquele que com seus filmes e peças me fez enxergar o mundo de uma outra forma .Assim como, as peças de Strindberg, Ibsen, Shakespeare e tantos grandes...tinha algo de tragi-cômico ou surreal, talvez como a própria vida inexorável à  morte. Explico: parecia surreal , eu nascido no centro do Brasil, ter conhecido tanto Strindberg e Bergman.Mas era o nosso humano mais que humano que nos assemelhava, independente do lugar.Algo que é do homem, da arte e do universo.
Eu ,que quando assistia os filmes de Bergman , tudo me parecia e me era tão distante e tão próximo, que tinha a sensação de que jamais conheceria a Suécia. A Suécia era tão distante ... que hoje no mundo virtual que vivemos é difícil explicar esta sensação.
Mas enfim, Suécia à parte; particularmente, também já tive amigos, que de posse de minhas histórias se aproximaram de meus ex-amores. Com o tempo,  aprendi a doar e não cobrar pelo o quê através do amor eu doei .
Também posso dizer, que quem mais me cobrou, foram os que de certa forma menos me amaram.Pelo menos da forma que eu esperava, apesar de dizerem que eu nunca encontrarei alguém que me amará tanto quanto eles me amaram. Será?

Arte:Fabricio Matheus

MONUMENTO AS BANDEIRAS BRECHERET


Têm mais fotos, mas não consegui postar.

Fotos:Fabricio Matheus






BANCOS de POESIA



Fotos:Fabricio Matheus

domingo, 13 de março de 2011

A SAGA do PINGUIM de GELADEIRA



"A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo."Gustave Flaubert

"Amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama".Miguel Cervantes


Meu primo que mora em Nova York ,em visita ao meu apartamento, manifestou o desejo de ter um Pinguim de geladeira. Não como o meu , que é somente branco e da Tok Stok, nem como os souveniers do Pinguim de Ribeirão Preto.Ele quer um original como o de nossas avós, um bem kitsch.
Combinamos de sair a procura de um no sábado, mas meu primo adiantou seu retorno e partiu na sexta. Coube a mim a procura de seu objeto de desejo.
No sábado chuvoso, saí a procura do seu pinguim de geladeira. Estava animado, a chuva espanta os compradores e o preço caí.
Para minha surpresa na Praça Benedito Calixto , tinha somente uma banca com Os Pinguins de Geladeira. Infelizmente, os pinguins de geladeiras, são avis raras e para minha surpresa estão em extinção e cada vez mais caros... coisa que não sabia.
Achei somente uma banca com os ditos cujos, nesta banca, especificamente os pinguins eram dos anos 50, todos assinados, com a origem e pedigree de suas respectivas proveniências e com os preços de acordo , algo que variava de 380 a 100 reais.
Como fuçar e procurar diferentes preços e artigos é algo que me dá um profundo prazer, deixei a busca aos pinguins de geladeira para o dia seguinte.
Domingo em São Paulo, têm a feirinha do MASP, a feira do Mube e a mais em conta a do Bixiga.
Manhã ensolarada , pûs-me a procura do objeto do desejo de meu primo. Ele quer um pinguim de geladeira da origem da que nossas avós tinham.
Nestas buscas fui me inteirando da origem dos pinguins de geladeiras.Alguns de Jundiaí, onde tinha uma famosa olaria.Outros, do Rio de Janeiro, da Osiarte que fabricaram azulejos de Portinari que decoraram a Igreja de São Francisco da Pampulha em Belo Horizonte, os painés das Fiandeiras de Guataguases-MG e do prédio do Ministério da Educação e Saúde no Rio, produziram também alguns azulejos de Caribé, Djanira, Burle Marx entre outros. Há alguns pingüins provenientes de olarias do Rio Grande do Sul.O ano de fabricação é importantíssimo e influencia o preço.
O engraçado é que não achei nenhum pingüim de geladeira cuja origem fosse a de pertencer a uma casa nobre, ou a um dono também nobre e de nome.
O preço dos pingüins de geladeira estão ligados aos anos e aos locais de onde precederam.
Também não achei nenhum pinguim que fosse de Porto Ferreira, considerada a terra da cerâmica.  
Os pingüins, da mesma origem do que as nossas avós tiveram,  que provavelmente são os de Jundiaí, estão realmente  em franca extinção, mesmo na feira do Bixiga. O mais barato e pequeno em torno de 120 reais.
Quase que desisto da procura desta avis rara , os pingüins de geladeiras,e busco para o meu primo o que herdei de minha avó, e se encontra agora, no calor tropical e infernal de Itumbiara, na casa de meus pais, no sul de Goiás.
Mas como bom brasileiro que sou, não desisto.Estou a negociar e a pechinchar um dos que encontrei numa das lojas de antiguidades e quinquilharias no Bixiga . E mantenho –me sempre de olho, nos caminhos do meu dia a dia, pois por um destes acasos da vida, posso acabar cruzando com algum pingüim de geladeira, como o de nossas avós, perdido e barato. Estas coisas acontecem. Ai, certamente, este não escapará e migrará em boas condições para o pólo norte .
Disse ao meu primo que pode ficar tranqüilo que conseguirei um dos que ele quer , como o de nossas avós, e em breve.
Este sortudo pingüim , repousará faceiro sobre a geladeira do meu primo em Manhattan , com uma grande janela a sua frente, com uma ampla vista. E se ele se esforçar, verá todos os dias ao longe, no horizonte,  além do nascer do sol  e o anoitecer , a Estátua de Liberdade.

Arte:Fabricio Matheus