quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

COMEMORAÇÕES



Entrando na casa, viram o menino (Jesus), com Maria sua mãe. Prostando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra." (Mt 2, 11).

"Sendo por divina advertência prevenidos em sonho a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra" (Mt 2, 12).

"O casamento deve combater incessantemente um monstro que devora tudo: o hábito." (Honoré de Balzac)

Hoje é dia de Reis, dos reis a quem devemos a tradição da oferenda de presentes no Natal. São três os reis, Gaspar que quer dizer aquele que vai inspecionar, Melquior que significa Meu rei é luz e Baltasar que é “Deus manifesta o Rei”. Neste dia costumávamos fazer as simpatias com romã, para trazer dinheiro e provisões para o ano. Três sementes engulimos enquanto o nome dos reis pronunciamos, três jogamos ao léu para trás e em ladainha repetimos seus nomes e três guardamos na carteira, repentindo mais uma vez seus nomes.
No dia de reis, 06 de janeiro há 43 anos casavam meus pais, desta união nasceu um ser matusquela que sou eu e minha irmã. As vezes sinto-me cada vez mais parecido com eles, tanto fiz para parecer outra coisa. Sou eternamente grato a esta união, pelo amor que construíu minha família e edificou meu caráter.
Quando era pequeno e não entendia das coisas, queria ter sido o porta- aliança do casamento de meus pais, que tinha sido minha prima. Depois eu cresci e fui chamado para carregar as alianças de uma prima distante, mas o marido era velho e eu não quis. A Liginha minha colega de escola e minha parceira que me convenceu e entrei na igreja contrariado.Depois do casamento não queria tirar fotos com os noivos.Minha mãe me prometeu uma pasta nova que era exibida na vitrine da livraria da esquina de frente para a praça e tinha o desenho do Romeu e da Julieta.
E todos os dias no caminho da Escola São José, eu de uniforme azul , camisa xadrez com o mapa do estado de Goiás pintado no bolso, inteiro, antes de ser dividido em Tocantins, ia para escola sereno e mal me dava conta que carregava pela rua a tragédia de amor de Verona.

CASAMENTO

Há mulheres que dizem :
Meu marido , se quiser pescar,pesque,
Mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
Ajudo a escamar, abrir, retalhar , salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
De vez em quando os cotovelos se esbarram,
Ele fala coisas como “este foi díficil”
“prateou no ar dando rabanadas”
E faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
Atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim , os peixes na travessa,
Vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
Somos noivo e noiva.Adélia Prado

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
A coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
Ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor,
Essa palavra de luxo.Adélia Prado


Arte:Fabricio Matheus

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

RETROSPECTIVA 2009




Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da um raggio di sole:
ed è súbito será. Salvatore Quasimodo

O Estar pronto é TUDO.
Se ninguém conhece nada daquilo
que aqui deixa, que importa deixá-lo
um pouco antes? Seja o que for! W.Shakespeare

Termino 2009 pela primeira vez no meu apartamento. Só , sentado no chão de frente para gerânios vermelhos que se entrelaçam nas grades cinzas da sacada. Ergo minha taça de champagne e começo a cantar um mantra indiano enquanto 2010 surge com o espocar de fogos que clareia o céu da Paulista.
O final de 2008, foi um dos piores de minha, acho que estava deprimido, frágil, sem rumo, sem emprego, sem dinheiro, sem projetos para o teatro e a arte que alimentam minha vida. Por outro lado, passei com a minha família, meu norte. À beira do meu rio, perto do hospital que nasci.
Mal cheguei a São Paulo, já comecei novos empregos. O trabalho dignifica o homem.Pelo trabalho me fortifiquei, mas sonhei pouco, comi mal , engordei. Foi um ano extremamente racional, com pouca emoção e pouco coração. Trabalhei muito, ganhei mais do que preciso e muito menos do que mereço. Fui reprovado em provas que na verdade não me interessavam. Trabalhar muito me fez esconder um pouco de mim, dos medos, quereres, desejo. Aos poucos e da maneira que consegui comecei a pintar , a escrever e fiz uma linda viagem, mas a maior foi minha viagem interna, doída.
Por tudo isto, no último dia do ano passado e no primeiro do ano novo , cuidei de mim. Escrevei, li, pintei, dancei sozinho, corri, andei. No último dia assisti Breaking Waves/Ondas da Paixão do Lars Von Triers. Hoje assisti Hanami-Cerejeiras em Flor.
Parece que tudo volta a se conectar do nada. Sinto-me mais forte, com um medo menor. Tenho menos necessidades. Não quero saber de onde vim e nem para onde vou, quero o agora.Li uma frase que diz: Escrever já é poder se ausentar. Não me entendam mal. Não quero morrer. É como se aos poucos eu voltasse a redescobrir meus segredos e sonhos secretos, que estavam adormecidos em mim. Sinto aos poucos que não tenho nada perder a não ser a minha vida. E por isso quero aprender a viver mais e mais.
Há quase seis anos não faço mais lista de metas para o novo ano.Desejo-me somente Saúde. Para 2010 desejo-me ainda Saúde. Saúde e força, principalmente no último segundo. Para que neste instante fugidio, nesta aurora fugaz , eu seja capaz de dançar todo o esplendor de luz e sombras que é a minha vida. FELIZ ANO NOVO!

Arte e desenho:Fabricio Matheus




quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O CERTO E O ERRADO




Achei esta foto vasculhando os álbuns e lembranças de mim mesmo, na casa de meus pais e no meu quarto de infância.Ela reflete muito de mim, meus olhos, sorriso. Ganhei esta máquina de escrever de natal, quando não tinha nem cinco anos, talvez um prenúncio de onde estava atado meu destino, talvez: A escrita , o conflito e o mistério.
O quê é certo? O quê é errado?
Esta semana recebi a visita de uma grande amiga e prima que mora no interior do Rio. Ela teve um casamento de dez anos que se desfez recentemente com muita dor. É preciso doer para crescer. E ela cresceu. Cresceu tanto que arranjou um amante. Um amante com algumas características do ex. A gente repete modelos? O amante é complicado, casado e paulista. E ela continua a crescer. ..Tanto, que ligou perguntando se poderia ficar na minha casa, onde o amante a pegaria para o “encontro”.
Fiquei extremamente feliz por ela, afinal, temos que continuar a crescer. Incentivei, discutimos técnicas e posições sexuais, estratégias...E enfim, ela veio.
No dia que ela chegou, ligou-me no trabalho, desesperada, ansiosa, insegura...Tinha viajado para o “encontro”, havia chegado há mais de uma hora e tentava em vão o celular e telefone do trabalho do amante que não respondiam. E agora? Ele vêm ou não vêm?Espero ou não?Sou uma tola?Ninguém me ama?...Tentei acalmá-la e ser racional diante da decepção que é aguardarmos sem resposta uma notícia do ser amado. Disse que as incertezas fazem parte da vida. E que ela estava vivendo, ele vindo ou não. Caso não tivesse notícias do dito cujo até às 15:00 horas, que ela deveria virar mais uma página de relacionamentos e voltar para o interior do Rio , “começar de novo e contar comigo”.
No exato momento em que falávamos , chega uma mensagem no seu celular que a redimiu de toda a tormenta de pensamentos negros, avisando que ele estava chegando em São Paulo, e o sol reascendeu em seu corpo.
Dali a uma hora, ligou-me novamente, ainda mais desesperada e ansiosa. Será que ele vêm ? Quanto tempo demora isto ou aquilo em São Paulo? Falou-me novamente de sua insegurança, da sensação de abandono e perda. Repeti que era para esperar até às 15:00 horas. A cidade estava sem trânsito, vazia .Milhões de paulistas viajam para festejar o ano-novo. Escutei mais um pouco seus lamentos e disse que tinha que voltar a trabalhar.
Dali a pouco recebo uma mensagem de que estava tudo bem: Ele tinha chegado. Quê ele isto!Quê ele aquilo!. Depois outra mensagem de que já estavam no meu apartamento. Depois outra ,de que haviam decidido ficar no meu apartamento. E outra, de que minha cama era perfeita, a água do chuveiro não esquentava e ela tinha usado uma toalha. E outra: Obrigado por tudo , te amo.
As últimas mensagens me pegaram de surpresa. O meu apartamento, meu lar-doce-lar tinha sido transformado numa “garçonnière” . Aliás no meu dicionário francês,é o que é: - casa de rapaz solteiro.E não por mim, ou por um amigo ou primo gay, mas pela minha prima amiga “certinha” do interior do Rio. Eu que não convidara mais que os dedos de uma só mão a desfrutar do meu leito sacro-santo. Eu que tinha por princípios não levar desconhecidos ao meu imaculado e sagrado espaço no mundo. Por quê estaria chateado, seria inveja do desfrute carnal de outros no meu leito há tempos vazio. Seria este ato demasiado grave aos meus princípios morais e éticos?
Entendi todo o seu desespero e talvez o prolongar da hora a tenha feito não perder tempo. Talvez!Isto não me pertence. Por outro lado, o meu lar continua meu lar, minha cama minha cama. E a cama estava arrumada, a casa cheia de bilhetinhos de amor, amizade e gratidão. Mesmo assim, troquei os lençóis, lavei a toalha e espalhei perfume pelo ar. Da próxima vez, posso dizê-la, se continuar a sentir perturbado, para que ela use outro lugar para o sexo. Talvez , eu tenha que desfrutar mais meu próprio leito e meu desejo. E como diz um filosofo francês : Apresentar o melhor amigo é revelar-se. E amigos são para essas coisas...


Arte:Fabricio Matheus

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

LA FIGLIA DI JORIO

                                     



“L’arte è la semplificazione delle linee. Il grande artista è um semplificatore.”G.D”Annunzio.

La figlia de Jorio é uma grande tela de 5,5 x 2,8 metros, obra –prima do artista do Abruzzo, Francesco Paolo Michetti, pintada em 1895 e exposta no mesmo ano na Bienal de Veneza. O quadro retrata uma jovem caminhando a passos largos, com um manto vermelho que a esconde e cobre principalmente a face, sendo observada por um grupo de homens, alguns bêbados com expressões diversas contrastantes de admiração, desejo, compaixão e desdenha.
A obra de Michetti, inspirou seu amigo Gabriele D’Annunzio nascido em Pescara, escritor e poeta parnasiano, dândi, lutou pela independência italiana no Vêneto, amigo de Mussolini, amante de Eleonora Duse entre outros fatos de sua inusitada biografia... a escrever em 1904 , sua tragédia pastoral de mesmo nome.
A Figlia de Jorio de D’Annunzio conta, com violenta sensualidade enraizada na paisagem agreste dos Abruzzos, onde superstições facilmente germinam e explodem paixões, a história de Mila di Codra, filha de Iorio , o bruxo. A moça é repelida por toda a comunidade de um vilarejo do Abruzzo onde se comemoram as Bodas de Aligi e Cândia. Mila é ajudada pelas irmãs de Aligi, que a descobre e se apaixona perdidamente e decidem fugir para as montanhas.
Lázaro, pai de Aligi, sai em sua busca. Mais sua real intenção, é seu desejo por Mila. Quando a verdade é revelada ao filho, este assassina o pai à machado. Aligi é julgado e condenado. Sua mãe enlouquece. No final, Mila dizendo-se possuída pelo demônio, assume a culpa de Aligi para salvá-lo e atira-se a fogueira destinada as bruxas bradando em êxtase: “A chama é linda!O Fogo é belo!”.
A obra-prima de Michetti foi adquirida pela comarca de Pescara e hoje encontra-se na prefeitura da cidade , coberta por uma grande cortina de veludo alemão verde.
Quando estava em Pescara na casa da família di Bartolomeo, já havia visitado o museu casa de D’Annunzio e o patriarca que possuía em suas paredes duas telas de Michetti , contou-me toda a história de sua obra-prima e incentivou-me a visitá-la no dia seguinte.
Cheguei no final da manhã à prefeitura da cidade , mas a sala que abriga a obra, é a sala de reuniões da câmara municipal e estava ocupada. A secretária sabendo se tratar de um estrangeiro, não sabia informar sobre a obra. Quando disse que era brasileiro, pediu-me para esperar. Minutos depois solicitou-me que a acompanhasse a sala, repleta de autoridades locais entre elas o prefeito da cidade. Eles pararam a reunião, abriram a cortina verde que escondia o quadro e foi uma festa. Muitos sequer tinham visto a obra ou sabiam que a cortina verde a escondia. Ficaram estupefatos ao ouvir a história do quadro e da peça teatral de um brasileiro. A reunião acabou em festa e eles convidando-me para almoçar. A família di Bartolomeu divertiu-se com toda a história e principalmente ao me ver chegar de carro oficial com o prefeito à porta da residência na via Primavere.
Quanto à mim, prefiro o quadro de Michetti à dramaturgia de D’Annunzio. O pintor retratou numa paisagem provincial, de maneira simplista e cotidiana, com o predomínio do tom vermelho, toda a representação da repressão do DESEJO.

Arte: Fabricio Matheus


domingo, 27 de dezembro de 2009

"EM QUE ESPELHO FICOU PERDIDA A MINHA FACE?"*




Neste natal fui de carro para a casa de meus pais, é um longo caminho, mas quis voltar aos caminhos pelos quais passei toda minha infância, pelos quais cresci, pelos quais confesso que vivi.
Toda a minha vida foi um percorrer esta estrada, da casa dos meus pais , às férias em Pirassununga na casa de meus avós paternos. Presenciei todas as transformações das estradas, postos, cidades que cortam este caminho, que tantas vezes percorri. Um caminho que se foi encurtando com o tempo. Quando pequeno demorava quase um dia. As estradas eram únicas, algumas sequer asfaltadas.Hoje ainda é longo, são oito horas de São Paulo a Itumbiara, mas parece curto.
Saí no dia 24 pela manhã, comecei pela Bandeirantes duplicada, bem sinalizada, ampla, peguei a Anhaguera em Campinas.Passei por Limeira, Americana, Araras, Leme e parei em Pirassununga, terra de meus avós paternos, onde nasceu meu pai. Passei no cemitério, onde repousam meus antepassados, hoje estão ali: Minha avó Ana, que morreu comigo há quase dezoito anos e está cada vez mais viva, como se não houvesse o tempo na memória. Meu avô Fabrício, de quem já escrevi, herdei o nome e o nariz. Meu tio e padrinho Sérgio, mais conhecido como Bolhinha e o Tio Clóvis com quem morei em São Paulo.
Subi a rua Joaquim Procópio, onde eram as casas de minha avó . A mais velha ,hoje é um escritório de Contabilidade e não consegui avistar as Jaboticabeiras que haviam no quintal, que fazia fundo com a dona Maria Bianco. A mais nova, no mesmo quarteirão, hoje escondida pelas árvores da calçada.Consegui ver a janela do quarto de meus avós. Lembro-me de tudo, dos cheiros da comida de minha avó, da varanda com os vasos de antúrios vermelhos, da cadeira onde meu avô passava a tarde contemplando a vida que passava . O corredor, os quartos , a sala, os ajulejos da cozinha. O quintal com a mangueira Borbon ,junto ao muro da casa paroquial.Os canteiros de avencas com os caramujos e o cheiro de mofo e veneno de rato do porão, onde escondi tantos tesouros.
Passei pela Matriz , onde casaram meus avós, meus pais e tios. Do lado esquerdo a Escola Normal onde estudou meu pai, tios e primo. Defronte na praça central com o coreto onde aos domingos íamos tomar sorvete e ver a banda tocar.
Continuando a viagem, passei por Ribeirão Preto, cidade que não para de crescer. Onde fiz a Faculdade de Medicina, residência médica e morei dez anos.Almocei na casa de minha amiga Noemi, que me atualizou sobre as novidades e a cidade.
Passei por Orlândia, São Joaquim, Ituverava.Cruzei o Rio Grande que separa São Paulo de Minas Gerais, agora,pela nova ponte. A antiga de ferro, construída por escravos, fica ao longe à direita. As rodovias de Minas são precárias comparadas com as paulistas, mas hoje de Uberaba à Uberlândia já se encontra duplicada, e o que parecia uma eternidade para se percorrer, se faz mais rápido.
Parávamos sempre nos mesmos postos. O posto das Emas, perto de Guará e São Joaquim da Barra, tinha um pequeno zoológico, com emas, pavões e capivaras, hoje abandonado. O Zebu em Uberaba , que era uma portinha e hoje cresceu, onde comprávamos queijo e farinha. Minha mãe preparava o lanche que era sempre pão com molho de carne moída e coca-cola. Não gastávamos nada, tudo era economia.
Durante a viagem minha mãe , contava as histórias das cidades, igrejas, nos relevos montanhosos, apontávamos a casa do Matusquela, um monstro sem forma, com grandes olhos e boca denteada que nos assombrava à noite. Matusquela ,na verdade, acho que nem ela sabe , quer dizer louco, aloprado. Ela continua a acreditar que é um monstro.
De Uberlândia a Itumbiara a estrada é mão única, cheia de buracos e inúmeros são os carros que se quebram no caminho, há que se ter cuidado. Nesta estrada morreram muitos dos meus familiares. Passei por Monte Alegre de Minas e Canapólis, a terra do abacaxi: 15 abacaxis por 3 reais. Depois de Centralina , já se vislumbra no horizonte ao longe o rio Paranaíba e o estado de Goíás.
Atravesso a antiga ponte pencil Afonso Penna, de mão única e pela beira-rio chego a minha rua:- a rua Tiradentes.Duas esquinas acima, na perpendicular fica a João Manuel de Souza, onde era a casa de minha avó materna , Dona Alzira. Outra casa onde escutei muitas histórias, senti muitos cheiros e tenho lembranças eternas. Hoje mora minha tia madrinha Lindalma. Minha avó repousa só no cemitério da cidade, minha tia a visita todos os dias.Do lado de seu túmulo, há um outro cercado com uma árvore e um banco onde minha tia se junta a suas amigas e passam a tarde com café e pães ao lado de seus mortos e a espera de novos.
Sempre na manhã que saíamos de férias, minha avó Alzira vinha cedo para casa nos ajudar, depois das malas devidamente arrumadas no porta-mala do carro. Nos despedíamos triste, ela ficava cuidando da casa. O olhar de minha irmã e o meu grudado no vidro do carro até perder minha avó de vista, descendo a rua Tiradentes , seguindo viagem pela mesma estrada que me traz e me leva.
Desta vez ficaram no portão, meu pai , minha mãe e minha irmã. Mas, dentro de mim, trago todas as minhas lembranças. Desço a Tiradentes, atravesso o rio Paranaíba e como o rio, sigo meu caminho... O homem é memória e imaginação.

*O título é uma frase da poetisa Cecília Meireles.,  e está em um livro que lí nestes dias, "A Alma Brasileira" de José Vilson dos Anjos. Minha face continua aqui, segura, firme, sem se perder e  com as marcas dos anos que vivi.Continuo sonhando que me perco principalmente por Itumbiara e Pirassununga.Como num paradoxo ou uma equação sem solução, como disse-me uma vez  um amigo escritor, que todos os escritores são mentirosos, portanto....

Fotos : Fabricio Matheus



sábado, 19 de dezembro de 2009

CARTA AO CONTARDO CALLIGARIS





“...um psicoterapeuta(e ainda mais um psicanalista) que define uma conduta como “desvio” não fala em nome da psicoterapia e ainda menos em nome da psicanálise. Ele fala quer seja em nome do seu anseio de normalidade social, quer seja em nome de seu esforço para reprimir nele mesmo o desejo que parece condenar. Segundo, e mais geral, quem estigmatiza categorias universais , como “os homossexuais”, “os sadomasoquistas”, “exibicionistas” etc., é um atacadista, enquanto a psicanálise trabalha no varejo: a fantasia e o desejo só encontram seu sentido nas vidas singulares.”C.Calliagris


Caro Contardo,

Leio religiosamente as suas crônicas , como se fosse uma sessão analítica, e tenho que ler no jornal.Não têm o mesmo prazer lê-lo na internet. Como leitor de suas crônicas, cheguei aos seus livros.Infelizmente não vi sua peça, mas quero ler e assistir.
Cheguei as suas crônicas pelos comentários de meu terapeuta. Sou médico, ator e minha paixão é a curiosidade pelo SER HUMANO, principalmente Teatro e psicanálise.
Foi um caminho longo chegar ao teatro que é a chama de minha alma, como uma individualização yunguiana. Sempre gostei de teatro e artes em geral e sempre tive medo. Cerceava o teatro como caminhar à beira de um rio ou à beira mar sem nunca me banhar em suas águas, o que aconteceu recentemente e não me afoguei.
Sempre li teatro, e logo no primeiro ano de medicina, deixava a anatomia pelas leituras de psicanálise e Freud. Durante a faculdade tinha quase certeza que faria psiquiatria, obtei pela ginecologia e obstetrícia e hoje sou radiologista.
Não me arrependo do meu caminho, não sei o que serei quando crescer , mas o TEATRO estará presente. A medicina me proporcionou no labor diário uma escuta da dor do outro e condições financeiras para um aprimoramento intelectual e experiências como viagens , amizades e encontros.
Comecei há alguns anos um grupo de leitura de Teatro coordenado pela Barbara Heliodora, líamos Shakespeare, teatro Grego, teatro francês e alemão. Grande parte do grupo era constituída de psicanalistas , membros da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Num dos grupos, um dos colegas, da diretoria da Sociedade ,após uma pessoa se servir com o café, limpava sistematicamente a garrafa com movimentos circulares, constantemente.
Resolvi fazer Formação Analítica e uma amiga, a mesma que me levou aos grupos de leitura, indicou meu terapeuta,  e  é também membro da Sociedade , orientou-me procurar o Sedes Sapientiae, que segundo ela era mais “democrático” e “aberto”.
Inscrevi-me na Instituição e a primeira entrevista com o Durval foi Mazzei exemplar e agradável, perguntou-me principalmente o meu interesse pela Psicanálise. Minha segunda entrevista com o Sr. O.Miguelez foi constrangedora, sua primeira pergunta foi se eu era homossexual. Disse que havia lido meu "curriculum" e que seu filho faria o mesmo estágio em Medicina Fetal que eu havia feito em Paris e que me aconselhava ficar na Medicina.
Para minha surpresa fui aprovado e para meu alívio o Sr. O.Miguelez daria aula somente no segundo ano. Adorava o curso, as leituras, seminários . Foi um grande ano de crescimento pessoal, tinha visitado a India, fui para a Turquia, apaixonei-me, acho que pela primeira vez na vida. E  foi um ano de muita dor; fui vítima de um seqüestro relâmpago na frente do Sedes , sofri violência física como uma coronhada na cabeça e quase perdi a vida.
Dentre os professores do curso , o que  mais aproximei-me pela sua intelectualidade foi o prof. Ede deO., um dos coordenadores, falávamos sempre nos intervalos principalmente sobre cinema e literatura.
O trabalho final do curso seria uma dissertação sobre “Pulsão de Morte” e desenvolvi o tema trabalhando o texto Salomé de Oscar Wilde.Discutiamos entre os colegas e trocavamos nossos trabalhos para um melhor aprimoramento do mesmo. A assistente do coordenador tinha elogiado e gostado de minha escolha.A nota final seria dada em particular, com uma entrevista sobre o progresso pessoal no curso.
A primeira afirmação do meu amigo de café, e coordenador do curso foi que eu fora muitíssimo infeliz na escolha do tema e principalmente do autor, no caso Wilde.Acho que me deu 6, não me lembro; mas  teria que repetir a disciplina. E se eu quisesse continuar no curso, teria que fazer terapia com um psicanalista membro da Sociedade Brasileira , indicado por ele, pois os meus terapeutas não pertenciam à tal Sociedade.
Nunca tinha vivenciado a vida com tanta energia como neste ano. Quando fui seqüestrado, meu terapeuta abriu sua camisa e mostrou uma enorme cicatriz de um assalto, o qual fora vítima como eu. Nunca senti tão amparado por alguém e por este gesto, que diz mais que palavras. Particularmente, tinha o sentimento que caminhava e pisava com dor e alegria no meu DESEJO.
Alguns amigos terapeutas aconselharam-me entrar com recurso, pagar para que outro analista lesse meu trabalho, como o Renato Mezan. Mas o principal problema foi a coação, e a imposição de um terapeuta. Talvez para mudar minha orientação sexual, proporcionar-me o desenvolvimento adequado de minha sexualidade e adequar minhas pulsões e meu desejo às normas sociais e principalmente ao comando e tirania do tal coordenador.Decidi abandonar o curso.
No horizonte de minha estrada pessoal,nasceu o sol com o Teatro. Agora: Ação, Prática. Para o teste da escola de teatro não perguntaram se eu era gay. Pediram que eu imitasse um sapo. Pulei, coaxei e nunca me senti tão feliz. Hoje sou ATOR.

Um grande abraço,

Fabricio


Arte:Fabricio Matheus
Desenho: Silvio Oppenheim que não gostou das alterações que fiz no mesmo, mas como grande amigo permitiu que  publicasse.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

FELICITAÇÕES E AGRADECIMENTOS




Neste final de ano, recebi inúmeras felicitações e pequenas lembranças dos pacientes que faço exame. Sou médico , mas não seu médico diretamente, realizo o exame solicitado por outro médico.Em algumas clínicas o paciente mal vê o rosto do médico que realiza o exame.
 A maioria das felicitações e pequenas lembranças vieram das pacientes do Hospital Servidor Estadual e não das Clínicas particulares. Não fiz nada além do meu trabalho, sinto agradecido de poder ouví-los. Acho que é o mínimo que os médicos deveriam fazer. Pacientes como a Sra. Mary Assef passam meses a espera de um exame que esclareça sua dor e a reconforte. Algumas vezes, não fechamos o diagnóstico imediatamente, mas estar presente e ouvir o paciente é fundamental. Muitas vezes quando termino um exame e o paciente diz muito obrigado, eu respondo:-Eu que agradeço. Inúmeros são os pacientes que me dizem que jamais ouviram um obrigado de um médico.Meu muitíssimo obrigado a todos. E desejo a todos e principalmente aos meus colegas médicos para 2010 muita HUMANIDADE e GENTILEZA.