terça-feira, 1 de janeiro de 2013

SONHOS OU A HISTÓRIA DE PI





“O mistério independe do tempo, porém a forma daquilo que não depende do tempo é o “agora”e o “aqui”.”Thomas Mann

"O céu-da-boca de Krishna esconde  todo o universo..."dp 


Isto aconteceu recentemente, entre 2012 e 2013. Num lapso de segundo, fechei os olhos e sonhei...
Estava no umbigo do mundo, ali , onde se acredita, ter sido o Éden ou Atlântida. É muito fundo o poço
do passado, ali algures no sul da Babilônia, onde a terra se liga ao céu. No profundo, ligado às memórias que nossa alma conserva do jardim da felicidade. Donde, saía uma corrente para regar este lugar, o jardim, e daí se dividia em quatro águas universais. Eu escolhi deixar-me levar pelo Gihon, o Nilo.
No entardecer, cortando o Egito, os templos, pirâmides , Esfinge de Gizé... O Saara de um lado, caminhei até a proa do barco  que me encontrava,  ouvindo  “Um bel di vedremo” e   senti-me o rei do mundo. Minhas mãos transformaram o que eu tocava em lápis-lazuli , pûs a coroa de Osiris e segurei o cedro de Isis e no mesmo instante, o meu rio agora era o Pison; o Ganges, o rio sagrado que contorna quase toda a Índia.
Estava num barquinho, depois de ter dormido ainda com os sons do ritual do fogo, aguardando o nascer do sol que foi o mais lindo que senti na vida.
De volta para casa, fui estudar psicanálise para entender o sentido da vida e compreender o homem e eu.
Numa noite, ao estacionar o meu barco, ele foi invadido por dois tigres de Bengala que queriam me roubar. Eu contava e ninguém acreditava, então inventei que fui sequestrado por dois marginais. Estava ouvindo mantra, quando fui abordado por um deles. Tudo foi muito rápido, como isso agora que estou sonhando. Tentei fugir, lutei com eles, mas estava mais preocupado com o óculos Gucci  comprado na Big Apple e com o Rolex. Até levar uma coronhada e ver meu sangue jorrar... e ver minha morte...
Eles passearam pela cidade, tentavam saber quem eu era... nem eu mesmo sei...E  comecei a falar de Deus. Agora, eu queria a minha vida e mais ainda viver... Eles saíram da cidade , e depois de quilômetros, deixaram-me na escuridão do nada.
Sai correndo anestesiado pela estrada até ver um ponto de luz...Até enxergar a luz.
 Muitos me ajudaram, com uma cordialidade infinita e eu só voltei a mim , depois da manifestação da força de Shiva. Meditando nu defronte ao espelho, o velho eu se queimou como uma fogueira e a fênix alçou voo.
Agora na Jordânia, numa noite no deserto de Wadi-rum, longe e perto do Eufrates, saí descalço e quase nu. Depois de um pôr-do-sol, a lua cheia, fez-se inteira, e minha sombra era maior que se houvesse sol, foi a lua mais linda que senti. O céu com toda a claridade, não escondia as estrelas e novamente  senti o mistério. Entendi que fazia parte de algo que era maior que eu mesmo e ao mesmo tempo era tão pequeno como o grão de areia que pisava.
No Tigre, eu acreditei no amor. Na metáfora de Platão, que acreditava ser o umbigo do mundo, o local de onde saíam quatro serpentes. Na quarta , eu fui picada por todas elas.  E no amor que eu cri, fui por ele jogado numa queda vertiginosa de volta ao poço escuro. Meus sonhos, ilusões , planos de ano-novo juntos em Sidney e um passado construído, tudo foi se quebrando.Minha alegria esvaiu-se, com outros sentimentos que  me faziam forte e quanto mais eu caía, mais triste e fraco eu ficava. O tigre foi-se , e cheguei a pensar  que fosse o fim. Tudo  rodava como uma vertigem louca, como um soco de uma onda de um Tsunami não esperado. E de repente, o fundo, a escuridão e a luz.
Quando dei por mim, agora, não estava longe, estava mais perto  do que pensava; à beira do Rio Paranaíba que banha minha cidade natal :- Itumbiara, que em tupi-guarani significa o caminho da cachoeira. Tinha descido a minha rua com o meu cachorro... Eu era o mesmo, e ao mesmo tempo outro, isto é próprio do tempo... O Otto me mostrava como cão, que não importa o lugar , importa é estar junto do seu dono, em outras palavras, importa  é estar junto daqueles que amamos. Sentei perto do rio, trouxe o Otto para perto e  vi meu reflexo  nas águas. No meio de tantas águas, na água mais perto do umbigo, eu me vi só...
Minha solidão não tirava minha crença em outros amores, ou minha esperança. Só revelava-me  o quê de certa forma eu já sabia, nascemos e morremos só. Todo o resto da história cabe a nós escrevê-la, sonhá-la... realizá-la.
Quando  abri os olhos, os fogos de artifícios já coloriam e clareavam o céu. Uma lágrima caíu na taça com champagne que segurava. Bebi, mas nem senti o gosto de sal, só o frescor do espumante . Novamente compreendi o mistério e sorri com  alegria, esperança ...a dor e  a delícia de ser quem eu sou.


PS:Se você não entendeu, nem eu!Assista “A história de Pi” do diretor Ang Lee.  Paz e Amor e Feliz 2013.


Foto: Fabricio Matheus
Arte: Fabricio Matheus

domingo, 2 de dezembro de 2012

MINHA OBRA –PRIMA



Nos demais,
todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração.”Maiakovski

Sou daqueles que a rotina sufoca, intóxica. Gosto de me renovar, do diferente, do novo, de descobrir , inventar e reinventar...
O que se repete; e o cotidiano mesmo com sua poesia, às vezes me cansa. Sim, ,  o nada, a repetição, o comum me esgota..,gosto  de desafios.
Talvez por isso, a medicina, me supre, numa parte em que talvez eu não encontrasse sendo somente artista.
Cada ser humano é único, a anatomia pode se repetir, mas têm suas diferenças no ser.
Outro dia, uma senhora tinha “situs inversus”, o que era do lado direito estava no esquerdo e vice-versa, eu viajei pelos caminhos que são criados desde a embriologia. Nisto há algo de um mistério, que só pode haver o dedo de um outro mistério maior.
E é por isso, que quanto mais complicado o caso, mas prazer eu tenho de fazer o exame.Pode ser uma coisa até doentia, mas fico cego, surdo e mudo até descobrir no emaranhado do meu pensamento o que foi apreendido e correlacionar com o quadro clinico e com as imagens que capturo, como um detetive, não abro os olhos e não volot a enxergar até descobrir e fazer o diagnostico. Nem sempre, consigo , e muitas vezes necessito de mais dados, exames. ..Outras, mesmo  depois  de feito o diagnóstico , o outro passo :- o tratamento; que  é um outro caminho, também com os seus mistérios, ou não!
Mas, desde pequeno, com o meu laboratório de brinquedo , sempre gostei  de inventar. E o ser humano , sempre me interessou , desde o átomo, hoje até ,antes do átomo; à celula e daí para diante tudo é muito ainda interessante para mim. 
A anatomia, para o médico, é tão importante, quanto para o artista, veja os estudos de Da Vinci e Michelangelo.
Outro dia, no Hospital, uma funcionária perguntou-me se poderia fazer o exame de um paciente queimado que ninguém queria fazer.Quando ninguém quer fazer um exame, o exame já se torna  mais interessante .
Quando entrei na sala, o mistério se revelou: -  Era um senhor do campo, que tinha sido acertado por um raio na cabeça. Além de estar queimado, tinha perdido o nariz e as orelhas. 
Estava sendo tratado como um rei, como o mesmo me falou. A equipe da cirurgia plástica, depois do sucesso do transplante de rosto na França, queria fazer quase o mesmo por aqui. Se bem, que o caso deste senhor era mais simples, pois seriam colocadas próteses de silicone nas orelhas e nariz e recobrí-las com pele. Os cirurgiões, além do exame das carótidas e vertebrais, queria  o mapeamento   arterial superficial da cabeça do paciente com uma caneta pilot vermelha.
O paciente falava com uma alegria , só por estar vivo, que eu com toda a minha vaidade curvei-me mais uma vez diante de  um outro mistério. Como ele sobreviveu? Cada um têm a sua hora? Perguntas? Sem muitas delongas, há algo que nunca saberemos responder, então calado permaneci, com minhas grandes orelhas , como Buda, fiquei escutando mais uma história de vida, um mundo!
Comecei o meu trabalho, cego e surdo, como um artista fui mapeando e desenhando o caminho das artérias superficiais à partir da carótida externa, fiz o trajeto da temporal superficial , da maxilar, da meníngea média e aí por diante, de um lado , depois o outro …
Quando abri os olhos, vislumbrei  o meu Móises, mas como Michelangelo, não precisei falar: _ Parla!
O senhor todo desenhando, agora com os caminhos das artérias da cabeça ,em caneta vermelha pilot,não tinha parado de falar e continuava…
Terminei meu trabalho, que nunca será exposto em galeria alguma, nunca será alvo de um leilão , ou adquirido por milhões de dólares... Mas que meus olhos, meu coração e minh’alma sabia que aqueles rabiscos, que desapareceriam, por uma causa maior,  era uma obra-prima!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

...EU SINTO QUE TE AMO PROFUNDAMENTE...





"O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente..."Mario Quintana


- A minha mãe era índia, é dizia: - não envelheça meu filho! Tudo acaba por baixo; panela de barro, rede e assoalho…
Só agora é que eu entendo. Meu pai era um preto, nunca foi no médico, teve um infarto e se borrou. Minha mãe além de chorar , falou;- Não te disse é tudo por baixo…
-Nunca envelheça doutor!
-Mas amigo , não têm jeito, ou envelhecemos ou morremos…
-É mais não é fácil, quando começa ...é só ladeira abaixo.
-Então vamos! Por quê pediram o seu exame? O que você está sentindo?
- Eu não sentia nada! Mas disseram que minha prostata estava grande. .. Foi uma, foi duas raspagem , e a coisa só piora!!!! É toda hora aquele ardor, aquela vontade de urinar….
- Antes que ele terminasse, já tinha eu terminado o exame. Orientei e perguntei quando seria o seu retorno.
- Doutor, eu trabalho aqui, sou amigo dos médicos, é só pegar e levar lá!!!
- O meu médico é aquele alemãozão , conhece; ele é famoso, têm o dedo maior que a mão.
- E eu só escutando. O mais engraçado, era que o sujeito era enorme, um mestiço, mameluco , meio mulato. E contava com um humor que contagiava.Têm gente que têm o dom.
Entremeios as frases, sempre : - Nunca envelheça ,doutor!
-Eu escutava e ria.
- O senhor ri, mas não é brinquedo.
- Ainda bem que aproveitei bem a minha juventude. Minha mãe, a índia, também dizia , faça tudo enquanto se é jovem. Ah! Isso eu fiz!Então não posso reclamar.
- Meus colegas , aqui do hospital, tiram sarro da minha cara!
- Pergunta: - Você foi no alemãozão de novo?
-  E têm jeito, tive que ir. E aí, como é que é?
- É uma consulta. Ele  te examina , depois faz o toque…
- Com aquele dedão?
- É o dedo que ele têm…
- Mais e aí?
- Aí, que agora eu já me acostumei…
-Mas a primeira vez, quando ele me examinou e estava com o dedo bem lá dentro, ele perguntou: - Sente alguma coisa?
- Eu pensei, pensei...respire fundo... e sussurrei,   antes que ele repetisse a pergunta, eu disse:
- Doutor, eu sinto… profundamente…  que eu te amo …
- Eu rindo, e ele continuou ,com aquele jeito de quem sabe contar causos e transformar os algúrios em alegrias…
- Pode rir doutor! Todo mundo ri, até o alemãozão , quando eu disse isso, nem ele se aguentou de rir…quase se molhou…
- Como dizia minha índia mãe, tudo acaba por baixo e embaixo …


*Às vezes as histórias mais divertidas, são contadas com o humor daqueles que padecem...
Independente da piada e da história, faça sua prevenção e envelheça com saúde, pois tudo acaba por baixo!!!!.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

ANA JULIA E O AMOR QUE ELA AINDA DESCONHECE




"Detalhes tão pequenos de nos dois, são coisas muito grandes para esquecer..."Roberto Carlos



Ana Julia é  a filha do  meio do meu primo Clóvis. Ela com aquele tamanho e com pouca idade,  já têm  uma personalidade forte e sabe o que quer, é um ser único.
Ela chega tímida, mas quando, reconhece o lugar e as pessoas ,é do tipo que se faz presente.
O aniversário do meu sobrinho Gustavo, foi um pretexto para um reencontro da família:- os mais velhos, os envelhecendo e a nova geração.
Estávamos ao redor da mesa, como é comum no interior, tudo entorno da mesa.
Ela chegou e quando se sentiu em casa, começou a cantar ,  primeiro as  musiquinhas que aprendeu na escola, de repente de chofre , ela começa a cantar a música que a tia Alba lhe ensinou .  
Com seus olhos grandes de jaboticabas brilhantes , lábios pequenos mas não finos, e suas mãozinhas no ar a dançar  como mariposas, começou:
- ...Eu tenho tanto para lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você...
Eu viajei, para um outro planeta, enquanto ela seguia de cor e de coração, não como um papagaio que somente repetia a letra e a canção. Mas tinha algo mais ali; nela e na canção. Era uma canção , que acho que ela não sabia, ou entendia todo o teor da letra, mas que ela gostava, e por isso a graça e o encanto.
Onde  eu me encontrava,  revi meus amores perdidos, minhas dores, meus sentimentos, minha fragilidade, meu mais que humano... E pensei nela, tão pequena, com um mundo de amor , alegrias e dores a descobrir e a viver...
...Nem mesmo o céu, nem as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito...
Não tive pena, só compaixão, e no meu íntimo,  desejei-lhe toda a sorte e a força do mundo, para enfrentar a tormenta de sentimentos e conflitos que faz parte do doce deleite da vida.
De volta, e quase não aguentando-me por dentro. Segurando as lágrimas nos olhos marejados como quem segura a força de um rio para não alagar e desabar num choro; ela terminou:- Como é grande o meu amor por você.
Aplaudi como os demais presentes, dei um forte abraço na pequena que estava na minha frente, e saí com desculpas para o banheiro.
Não que precisasse  de ir ao banheiro , eu precisava esconder as minhas lágrimas e a minha dor.
Eu precisava me ver no espelho, ver os meus olhos e a minha alma. Eu precisava me rever nu, que foi como a Ana Julia me deixou com a sua canção do Roberto.  Rever a  minha fragilidade, o meu humano. Apesar de tê-la abraçado,  eu precisava de alguém que me abraçasse, mesmo que fosse eu...
Recomposto do assombro, e renovado, voltei para a mesa como se nada tivesse acontecido. Chamei a Ana Julia, e pedi que ela cantasse comigo , e novamente  começamos:
.... E não há nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você
Nem mesmo o céu, nem as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Não é maior que o meu amor, nem mais bonito 
Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você
Agora quase toda a mesa  cantava junto e terminamos num uníssono e com aplausos:
Nunca se esqueça nem um segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você....
Ana Julia, você foi inesquecível!

domingo, 25 de novembro de 2012

O ESPECTRO DO SEX-APPEAL


"Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo." Confúncio

Fotos e produção: Fabricio Matheus
Make-up:Pedro Sampaio
Coloaboração:João Hannuch

PS:Nem preciso dizer que este autoral não entrou no meu portifólio da EPA.