domingo, 13 de março de 2011

A SAGA do PINGUIM de GELADEIRA



"A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo."Gustave Flaubert

"Amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama".Miguel Cervantes


Meu primo que mora em Nova York ,em visita ao meu apartamento, manifestou o desejo de ter um Pinguim de geladeira. Não como o meu , que é somente branco e da Tok Stok, nem como os souveniers do Pinguim de Ribeirão Preto.Ele quer um original como o de nossas avós, um bem kitsch.
Combinamos de sair a procura de um no sábado, mas meu primo adiantou seu retorno e partiu na sexta. Coube a mim a procura de seu objeto de desejo.
No sábado chuvoso, saí a procura do seu pinguim de geladeira. Estava animado, a chuva espanta os compradores e o preço caí.
Para minha surpresa na Praça Benedito Calixto , tinha somente uma banca com Os Pinguins de Geladeira. Infelizmente, os pinguins de geladeiras, são avis raras e para minha surpresa estão em extinção e cada vez mais caros... coisa que não sabia.
Achei somente uma banca com os ditos cujos, nesta banca, especificamente os pinguins eram dos anos 50, todos assinados, com a origem e pedigree de suas respectivas proveniências e com os preços de acordo , algo que variava de 380 a 100 reais.
Como fuçar e procurar diferentes preços e artigos é algo que me dá um profundo prazer, deixei a busca aos pinguins de geladeira para o dia seguinte.
Domingo em São Paulo, têm a feirinha do MASP, a feira do Mube e a mais em conta a do Bixiga.
Manhã ensolarada , pûs-me a procura do objeto do desejo de meu primo. Ele quer um pinguim de geladeira da origem da que nossas avós tinham.
Nestas buscas fui me inteirando da origem dos pinguins de geladeiras.Alguns de Jundiaí, onde tinha uma famosa olaria.Outros, do Rio de Janeiro, da Osiarte que fabricaram azulejos de Portinari que decoraram a Igreja de São Francisco da Pampulha em Belo Horizonte, os painés das Fiandeiras de Guataguases-MG e do prédio do Ministério da Educação e Saúde no Rio, produziram também alguns azulejos de Caribé, Djanira, Burle Marx entre outros. Há alguns pingüins provenientes de olarias do Rio Grande do Sul.O ano de fabricação é importantíssimo e influencia o preço.
O engraçado é que não achei nenhum pingüim de geladeira cuja origem fosse a de pertencer a uma casa nobre, ou a um dono também nobre e de nome.
O preço dos pingüins de geladeira estão ligados aos anos e aos locais de onde precederam.
Também não achei nenhum pinguim que fosse de Porto Ferreira, considerada a terra da cerâmica.  
Os pingüins, da mesma origem do que as nossas avós tiveram,  que provavelmente são os de Jundiaí, estão realmente  em franca extinção, mesmo na feira do Bixiga. O mais barato e pequeno em torno de 120 reais.
Quase que desisto da procura desta avis rara , os pingüins de geladeiras,e busco para o meu primo o que herdei de minha avó, e se encontra agora, no calor tropical e infernal de Itumbiara, na casa de meus pais, no sul de Goiás.
Mas como bom brasileiro que sou, não desisto.Estou a negociar e a pechinchar um dos que encontrei numa das lojas de antiguidades e quinquilharias no Bixiga . E mantenho –me sempre de olho, nos caminhos do meu dia a dia, pois por um destes acasos da vida, posso acabar cruzando com algum pingüim de geladeira, como o de nossas avós, perdido e barato. Estas coisas acontecem. Ai, certamente, este não escapará e migrará em boas condições para o pólo norte .
Disse ao meu primo que pode ficar tranqüilo que conseguirei um dos que ele quer , como o de nossas avós, e em breve.
Este sortudo pingüim , repousará faceiro sobre a geladeira do meu primo em Manhattan , com uma grande janela a sua frente, com uma ampla vista. E se ele se esforçar, verá todos os dias ao longe, no horizonte,  além do nascer do sol  e o anoitecer , a Estátua de Liberdade.

Arte:Fabricio Matheus


A DÓCIL - PALHAÇOS – 2X DAGO


“Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só;mas se morrer, dá muito fruto.”Evangelho segundo João 12:24

Estas palavras então gravadas na lápide de Dostoiévski( 1821-1881), no monastério Nevsky em São Petesburgo. Versos que serviram de subtítulo para seu último romance , Os Irmãos Karamazov, considerado por Freud o melhor romance já escrito. Sua obra teve uma influência decisiva sobre toda a literatura do século XX, especialmente no expressionismo e existencialismo.
Para Nietzsche , o autor foi o “único psicólogo com quem tenho algo a aprender : ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida”. No Brasil sua obra se popularizou principalmente pelas traduções francesas e influênciou entre vários escritores , Machado de Assis, principalmente por despertar no leitor este mergulho na alma humana.
Dostoiévski , cuja escrita encarnam valores atemporais, temas universais, como a morte, suicido, orgulho, destruição dos valores familiares...Sempre com visões sob diferentes ângulos e repletos de uma força dramática, em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica. Os fatos aparecem de repente, o instante ganha o tempo, as cenas aparecem e desaparecem como num filme, como numa peça de teatro.
A Dócil, novela do autor escrita em1876, está em cartaz no Galpão do Folias, com dramaturgia de Dagoberto Feliz e Pedro Mantovani. Direção de Pedro Mantovani com Dagoberto Feliz e Patrícia Gifford.
A história é a do envolvimento amoroso do dono de uma casa de penhores, homem mais velho, com uma adolescente de 16 anos, com quem se casa e trava uma batalha silenciosa, submissa , opressiva , dia a dia, culminando em uma tragédia.
A novela lida poderia ser uma análise do narrador sobre o fato, que nós é contada com a atuação visceral de Dagoberto Feliz, em meio ao cenário caótico da dupla dos adaptadores, iluminação de Aline Santini e trilha musical de Demian Pinto que faz total diferença.
A história, se você não soubesse, poderia ter sido escrita por Machado de Assis ou até mesmo Nelson Rodrigues.Entremeado a narrativa dos fatos ocorridos, a música entra com a mesma força dramática das ações que nos são apresentadas, num leque que mescla do Tango a Beethoven , de Herivelto Martins, passando por Roberto Carlos e terminando com Chico Buarque e Tom Jobim.
Dagoberto e Patrícia dissecam a alma dos personagens e nos mostram os horrores e misérias da alma humana.De algo, que de certa maneira, esta escondido em cada um de nós. Assistindo a arrebatadora apresentação não têm como não nos redimirmos de nossa pequenez, de nossa finitude. A grandeza da apresentação têm a mesma força transformadora das palavras do autor russo.Talvez mais do que isso, hoje em que a imagem é tão mais forte que a escrita, a peça e o teatro trazem para o público o drama na forma tridimensional.É imperdível.
Fiquei arrebatado pela história, pelas músicas.Muitas fizeram parte de minha infância , e as conheci pelo meu avô , que adorava a Dalva de Oliveira e a Ângela Maria, outras pelo meu pai e outras que escutei no LP dos Doces Bárbaros com a Bethânia, que quis ver mais o Dago.
O Galpão Folias foi um aprendizado na minha vida durante a temporada do El dia em que me Queiras. Fiz amigos e quase uma família ali. Aprendi muito sobre o teatro, a dedicação do ofício com os atores.Entre eles o Dago, que será para sempre o meu Gardel, ainda me lembro claramente de suas falas na peça.
Ficava horas vendo e aprendendo sua rotina com a maquiagem, o cuidado com os instrumentos musicais , com o vestuário dos personagens, o aquecimento vocal era uma festa (séria!). Diverti muito com suas histórias, aliás muitas... Neste período, o Dago estreou Palhaços na sessão da meia-noite e assisti a primeira noite.Depois a temporada foi para outro teatro e quando terminava o El dia , o Dago saía de moto com o acordeon pendurado às costas, rumo ao outro teatro para apresentar Palhaços.
Novamente, reencontrei antes do Palhaços , o Dago na pele do Dago no sagão do teatro Imprensa.Conversamos e revi Palhaços , acho que depois que se passaram 5 anos, algo de Lorca .
Palhaços, de Timonchenco Wehbi(1943-1986) é uma peça de 1974, sobre um duelo travado nos bastidores de um circo decadente , entre um palhaço profissional e um outro palhaço da vida, com diálogos ríspidos, rápidos, outra história sobre o absurdo da existência humana.
Dagoberto Feliz dividi o palco com o não menos sensacional Danilo Grangheia, com direção de Gabriel Carmona.Se a peça está em cartaz ao longo destes anos, não é preciso escrever mais nada,se você não assistiu , não perca.
Quero escrever sim, como a peça fluiu e evoluiu ao longo dos 5 anos. Na primeira noite, lembro-me que o final foi abrupto. Danilo, sempre grande, estava mais técnico e era mais voz,e que voz. Passados 5 anos, o que presenciei foi um feliz casamento que só evoluiu para melhor. Alias , entre outras peças como Orestéia , os dois já estiveram juntos no poético filme escrito e dirigido por Bete Dorgam para a TV Cultura , Fellini sobre as águas...
Assistir A Dócil e rever Palhaços, além de ter feito um bem para minha alma sempre carente de arte, foi novamente um aprendizado sobre teatro e o ofício do ator.
Dago, um beijo na sua alma, no seu coração, maior que o teatro, maior que o mundo e que como seu nome, você seja sempre FELIZ.

quarta-feira, 2 de março de 2011

ESCADA DE MINHA MANSARDA de GUILHERME DE ALMEIDA



Escada de minha mansarda

Íngreme, estreita, escura e curva é a escada que sobe para minha mansarda.
Capaz de desanimar os velhos fôlegos cardíacos, nunca, entretanto, intimidou meu já muito vivido coração. Pelo contrário:leva-me leve, alado como os anjos da escada de Jacó.
Jamais me arrependi de tê-la subido.Sempre me arrependi de tê-la descido. Porque é mesmo uma ascensão ir pelos seus degraus acima:um desprendimento do rasteiro, numa ânsia de quietude, isolamento e sonho, para o pleno ingresso nos meus Paraísos Interiores. E porque é sempre uma degringolada ir pelos degraus abaixo:uma humilhante devolução ao mundo de todo o mundo, uma expulsão do réprobo atirado impiedosamente às ganas da caterva.
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Escada da minha mansarda...
Chego, pesado, do dia cretino e pornográfico, esbanjado entre interesses desinteressantes, palavrórios e palavrões, mandos e desmandos, incompreensíveis incompreensões...
Chego. O fardo é exaustivo. Enfrento a escada. Parado, um instante, deixo ir por ela o olhar e o pensamento. Já isso é um alívio. O mundo, que eu piso, assume, então, certa importância: a de um capacho.Na sua áspera fibra limpo a sola dos meus sapatos.Lá, no topo, está a libertação.
E subo, contando os degraus, que vão ficando cada vez mais fáceis. E eu vou ficando cada vez mais leve. Mais fáceis... Mais leve...Mais...
Pronto!
Aqui não há leis:nem mesmo a da gravitação terrestre.
Aqui é um ponto fixo no espaço.Talvez aquele pro que suspirava Arquimedes:-- “Dê-me um ponto fixo no espaço que, com uma alavanca , eu moverei a terra!”
Eu tenho esse ponto.E basta. Não quero alavanca. Porque a terra não me interessa.

Guilherme de Almeida (Coluna”Ontem-Hoje-Amanhã”, no jornal Diário de São Paulo publicado no dia 28 de março de um ano desconhecido).

CASA GUILHERME DE ALMEIDA


O Homem que falava sozinho
“A rua vai falando
Ítalo-arábe-hebraico-russo-japonês
um dia não sei quando
um sujeito passou falando portugês”
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“Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”
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“Vias-me .E então, num súbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
E me abrias os braços para o amor!”
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“Todo amor não é mais do que um “eu” que transborda.”
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“Porque o amor tem um gosto esquisito de morte!”
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“Passas por mim – e há tanta , tanta
música em ti, que tudo canta.
Tudo encanta”
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ROMANCE
E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.
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“...Mas trago a eternidade na miragem...”
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“O que de olhos abertos eu não via.”
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“A mentira da vida e a verdade do sonho.”
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“E partiste.E eu fiquei no dia sem paisagem.”
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“Das tardes todas de amor de que vos lembrardes,
Dos restos todos de dor das suas saudades
Só fiquei eu.”

Eu sempre gostei de visitar as casas das personalidades que admiramos. Faço isso no Brasil e quando viajo. Em muitos destes locais, além de se conhecer mais:- ver onde dormiu, onde descansava, onde escrevia, o cotidiano, nos aproxima e amplia nossa visão sobre a obra e o artista.
Foi reaberto pelo governo do Estado de São Paulo no dia 11 de dezembro de 2010, depois de longa reforma a casa do poeta Guilherme de Almeida. A casa além de museu é um Centro de Estudos de Tradução Literária, ou seja , um centro de pesquisa e cursos constantes de literatura,poesia, cinema e outros temas.
Tinha uma vaga lembrança do Príncipe dos Poetas, um livro da editora abril e algumas leituras no colegial , talvez pelo seu título, minha memória sinalizava algo de parnasiano em sua poesia, ledo engano.
Minha visita a sua casa, além de redescobrir o jornalista, tradutor, e excelente poeta, moderno. Guilherme de Almeida foi um dos primeiros a escrever Haikais, influenciando o concretismo. Era casado com Baby de Almeida, e são interessantíssimas as histórias que nos foi contada sobre seus primeiros encontros entre outras.
 Foi um grande tradutor de escritores ingleses, franceses principalmente e até índus, entre outros. Uma de suas qualidades era a amizade. E a amizade é marcada pelos presentes e sua proximidade com as artes plásticas. Há obras de Segall, Di Cavalcanti, Sansor Flexor, Tarsila, Anita Malfati entre outros. Vários livros com dedicatórias de Rosa a Walt Disney.
Guilherme de Almeida (1890-1969) formou-se em direito no largo de São Francisco onde começou a publicar seus poemas ainda sob o pseudônimo de Guidal. Exerceu seu ofício como jornalista, foi crítico de cinema, participou da Revolução de 30 em São Paulo, escreveu hinos, tinha uma preocupação estética com a grafia e a forma do poema, foi exilado em Portugal entre outros feitos.
Membro , a partir de 1928 da Academia Paulista de Letras, tornou-se o primeiro autor moderno a ser eleito na Academia Brasileira de Letras em 1930.Entre inúmeros títulos e condecorações, foi lhe conferido o de Príncipe dos Poetas Brasileiros em votação nacional em 1959, nada que lhe tirasse do seu ofício de secretário de escola, jornalista e cronista e seu cotidiano de artesão da palavra.
A visita a Casa Guilherme de Almeida é uma viagem de agradável descobertas, além da gentileza dos guias, sempre prontos as dúvidas e fazendo o máximo para que você aproveite o que o museu têm a oferecer.
Começamos pela entrada da casa. Depois, a sala com quadros de artistas famosos , algumas esculturas em homenagens aos seus livros. A sala de jantar. Uma outra sala , onde se realizam os cursos e exibições com discussões do programa do Centro Educacional, também com inúmeras obras .
No primeiro andar, onde funciona parte do acervo de livros e a diretoria da Casa-museu, há também o quarto do casal, com uma cama de dossel azul. Fotos da família. Um genuflexório de sua amada esposa para as preces e orações.
Uma pequena escada nos leva a sua Mansarda, ao seu esconderijo, ao seu escritório.Local que ganhou inclusive uma crônica na coluna “Ontem-Hoje-Amanhã” no jornal Diário de São Paulo. Era ali, que o poeta passava o dia e a noite perdido nas letras dos versos e em línguas diversas em busca da perfeita tradução.
O quintal da casa, foi transformado em um pequeno auditório aberto, cujo cenário são algumas árvores, têm uma jaboticabeira e à esquerda , o túmulo do cachorrinho do casal que se chamava Ling-Ling.
Além de descobrir um mundo. O mundo do poeta. A visita aproximou-me de sua biografia e de sua obra encantadora. Era realmente um mestre das palavras, amigo dos amigos, político , diplomata das relações e um articulista que prezava a vida familiar e os amigos acima de todos os poemas.
A Casa Guilherme de Almeida fica na rua Macapá187, numa colina no Pacaembu. A entrada é gratuíta, e o museu permanece aberto à visitação de terça a domingo das 10 às 17 horas.Maiores informações no site abaixo. É mais uma opção cultural de alto nível para a cidade de São Paulo.


Fotos:Fabricio Matheus

terça-feira, 1 de março de 2011

HAIKAIS NA SUMARÉ



Dizem que estou mais triste
na verdade
estou mais humano

Ela anda de preto básico
O boné de strass preto
Brilha ao meio-dia

Ele têm os olhos verdes
ele corre com a camisa verde
e os cadarços do tênis
também verdes

Ele corre sem camisa
e carrega nas costas
um cristo na cruz

Ela é gordinha
E não anda
Ela corre e não corre
Ela podia começar a andar

Ela anda com o cachorro
Como desculpa
para conhecer
outros cachorros...

Ele corre  na dele e finge não olhar
Quando passa
ao lado correndo
aquele corpo  na dele que não quer calar

Eles andam em três
escrevem no jornal
e discutem filosofia
nas histórias da vida

Ida
Corro com os carros indo
Volta
Corro com os carros vindo

Fotos:Fabricio Matheus

COMO ESQUECER UM AMOR OU APRENDER A AMAR II


Malba Tahan conta, em um de seus livros, a história de um homem que foi condenado à prisão, e nela encontrou companheiros que falavam muitos idiomas diferentes. Para passar o tempo, aprendeu vários deles durante sua prolongada estadia no cárcere. E, quando saiu, ganhou fama de sábio, embora quase não falasse mais. E por que? Porque ele era capaz – assim diziam – de ficar calado em sete línguas diferentes!


Fui ao teatro assistir a História de um príncipe triste e melancólico que saí a procura de três laranjas para aplacar o seu penar.Foi quando reencontrei uma amiga que me perguntou o quê fazer para esquecer um amor.Eu respondi que os amores não são feitos para serem esquecidos e sim para que sejam aprendizados para os próximos amores.
Mesmo nos amores não correspondidos, o sofrimento e o sentimento de não ser querido, nos fornece um momento particular importante para que possamos apreender sobre nós.
As vezes os amores não correspondidos nos semeiam um sentimento de revolta e uma vontade de revidar. De mostrar ao outro que podemos e que poderemos ser queridos e estar com alguém melhor e que azar o dele de não me querer.
Há pessoas que fazem do amor não correspondido um motivo de vida, um amor-ódio, e se vingam não amando os outros que a amam. Outros fazem de um único amor o motivo final de suas vidas.
Outros acham que amam e fazem do amor platônico , algo maior e inatingível, e vivem desse amor que nunca se concretiza,transformando o fato em ilusão e no sentido maior de sua existência .
Outros não esquecem jamais alguém por medo de se machucar novamente e sofrer.
Eu falei de mi respondi que cada pessoa têm sua maneira de amar e esquecer um amor. Mas os amores não são feitos para serem esquecidos.Como dizia o poeta Drumond:Amar se aprende amando.
Conversando sobre o amor com minha amiga, veio-me as histórias de amor, não só as vividas , mas as lidas e assistidas. Lembrei-me de Inês de Castro, personagens de Shakespeare, Rosa e tantos outros que descreveram o amor com tamanha propriedade e clareza que quase materializarão o etéreo sentimento maior do homem.
Não sei se minha amiga é muito nova, mas a dela é vnigança. Que assim seja!Espero que ela aprenda na vingança, o amor.
Lembrei-me de uma história parecida com o conto de Eça de Queiroz “ O estranho caso de José Matias”, era um rapaz que achava que amava e nunca era correspondido. O rapaz tornou-se vítima de seu destino e fez-se poeta. Escrevia versos a suas amadas, e realmente nunca era correspondido.
Até que se apaixonou por uma linda mulher enquanto assistia um jogo de basquete na quadra da universidade. Ele a viu de longe e se apaixonou. Começou a mandar poemas e mais poemas. Ela era linda, e depois ele descobriu que ela era noiva. Com isso ficou mais triste e mais melancólico, sabia que jamais seria correspondido. Seus poemas eram escritos cada vez mais com mel e sangue.
A garota linda começou a ficar tocada com as palavras do rapaz, e se o quê ele escrevia fora verdade, talvez pudesse o rapaz ser o homem de sua vida. A garota era mais nova que o rapaz mas era uma mulher. O rapaz que queria amar era ainda um menino.Amedrontado e apaixonado.
Um dia a garota foi atrás do rapaz e disse que estava disposta a largar o noivo para viver o amor que o rapaz escrevia.
Foi aí que o rapaz percebeu que ele até queria amar a garota, mas ele não amava. Ele ainda não sabia o que era o amor. Ele tinha uma vontade enorme de amar, ser amado , mais tinha medo.
A possibilidade real de amar a garota, que talvez pudesse redimi-lo , e fazer inveja aos outros por estar com uma bela mulher. Além de mostrar que ele não amava a garota e sim talvez essa possibilidade, revelou um segredo ao rapaz que ele guardava escondido a sete chaves dentro dele mesmo , talvez ele até soubesse , mas evitava até pensar. O segredo era simples, muito simples. O segredo era o seu desejo.
O rapaz gostava de rapaz! Mas feliz que José Matias, o personagem do conto de Eça, o rapaz viajou , cresceu , tornou-se homem e aprendeu realmente a amar e o quê era o amor com outros iguais a ele.

"Eu me dedico demais ao amor..."
"E assim pensando rasguei, tua carta
E queimei, para não sofrer mais."Isaurinha Garcia


Fotos:Fabricio Matheus

COMO ESQUECER UM AMOR OU APRENDER A AMAR I


“Amor, que o gesto humano na alma escreve”

“É um não querer mais que bem querer”Camões

Era uma vez um príncipe triste, D.Pedro, herdeiro do trono português. Era casado, mas se apaixonou por uma das aias de sua esposa que se chamava Inês. Inês foi mandada para longe, para amenizar os boatos da corte, mas logo, a futura rainha morreu, ao dar a luz ao novo futuro rei D. Fernando.
Inês regressou do exílio para viver com o príncipe. O rei tentou casar novamente o herdeiro com uma dama de sangue real. D.Pedro alegou estar ainda em luto, para continuar a viver com Inês, com quem foi tendo filhos:três...
Pedro estava feliz com Inês e moravam no Paço de Santa Clara, construído por sua avó a Rainha Santa Isabel.Havia boatos de que o príncipe casara em segredo com Inês. O rei D.Afonso cedendo às pressões, mandou matar Inês, cujas lágrimas derramadas no rio Mondego criaram a Fonte dos Amores da Quinta das Lágrimas e algumas algas vermelhas que ali cresceram, diziam ser o sangue derramado da amada , mas não nobre dama.
O príncipe além de triste, ficou revoltado. Com a morte do rei, foi coroado como D.Pedro I, o oitavo rei de Portugal, legitimando os filhos de Inês , ao afirmar seu casamento com a amada já morta.
O príncipe perseguiu e executou os assassinos de Inês, arrancando-lhes os corações pelas costas.
Não contente, mandou desenterrar Inês, e a coroou rainha , obrigando-lhe aos súditos a beijar a mão de sua tão amada amante. O príncipe continuou triste para sempre, até os fins de seus dias...
Mandou construir o seu sepulcro no mosteiro de Alcobaça de frente, onde sepultou Inês.Os restos de ambos jazem juntos até hoje, frente a frente.Contam os portugueses, que é para que possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final.
Este episódio ficou eternizado pela escrita de Camões no Canto III de Os Luzíadas, epopéia que narra a saga e aventura do povo português. Paradoxalmente, popularizou-se entre os portugueses, descendentes e brasileiros que estudaram literatura portuguesa nos livros de Massaud Moisés a expressão: Inês é morta! Significando que não adiantou coroar-se rainha visto que morta era .
O fato é que Alcobaça, pequena cidade de Portugal, vive basicamente do Turismo, das visitas ao Mosteiro onde adormecem D.Pedro e Inês.
Todas as noites em Alcobaça, estreladas ou não, se encena a Tragédia e o Amor de Inês de Castro.

Fotos:Fabricio Matheus