terça-feira, 9 de novembro de 2010

MINHAS MÃES E MEU PAI/THE KIDS ARE ALL RIGHT



“Toda a família realmente viva segrega um certo ritual sem o qual se arrisca a longo prazo a perder o seu convívio secreto”.G.Marcel

Estréia na próxima sexta-feira, dia 12 de novembro , o filme Minhas mães e meu pai(The Kids are all right/2010), dirigido por Lisa Cholodenko, com roteiro da própia e de Stuart Blumberg.
Uma ótima comedia –drama, que superou as expectativas e pode até levar algumas indicações ao Oscar 2011, devido ao excelente elenco, que nos mostra com leveza e verosimilhança uma história que poderia a primeira vista ser carregada de preconceitos, problemas éticos e jurídicos.
A história do filme mesmo com algumas falhas é o mote para os atores brilharem e nos emocionar.
Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) são um casal de mulheres com um relacionamento estável e feliz, com dois filhos concebidos pelo mesmo doador de esperma. Joni (Mia Wasilowska) a Alice de Tim Burton, é filha de Nic. Laser (Josh Hitcherson) é filho de Jules. Os problemas surgem quando as ciranças, especialmente Laser decidem conhecer o pai biológico, o doador de esperma , Paul (magistralmente interpretado por Mark Ruffalo), sujeito bonito, idealista, dono de um restaurante de alimentos orgânicos.
Apesar de não ser autobiográfico, a diretora Lisa Cholodenko, vive um longo casamento com uma mulher e com um filho gerado por inseminação artificial. Com esta história, os detalhes cheios de humor e verdade, minuciosamente compõe o dia a dia de existir em família, como as trocas afetivas, jantares, afetos , cumplicidade e solidariedade entre os irmãos e casal.
A ótima Julianne Moore é o contraponto para a interpretação magnânima de Annette Bening, que poderia lhe render o Oscar que não venceu em Adorável Julia(Being Julia/2004).
Não quero entrar mais em detalhes, pois é um filme que merece ser assistido. Como saiu na revista Veja: “ Minhas mães e meu pai é bem mais que um filme gay: é uma história minuciosamente realista de vida em família”.
É uma história de construção do amor, da família, sendo o amor , mesmo que às vezes, se pareça desgastado com o tempo, se há uma história, uma base , uma estrutura, ele ressurge forte, firme , resoluto para se reconstruir. Há momentos emocionantes, poéticos e com uma leveza que faz tudo parecer natural, e mesmo, simples...

Arte:Fabrício Matheus


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


Pensar em justiça não é suficiente, é necessário praticá-la sem esperar que regras e punições oprimam para que as coisas sigam esse caminho.Quem pratica a justiça não esbanja simpatia, mas semeia confiança” meu horóscopo de hoje /Quiroga.

Estão cada vez mais próximos os casos de violência doméstica. Todos os dias no trabalho escuto uma história. Mulheres que apanham do marido. Mulheres cujos maridos não ajudam nas despesas dos lares. Violências sexual do padastro com a enteada, além de casos de incestos. Ou crianças que forjam serem vítimas de abuso sexual nos lares.
A Violência doméstica pode ser explícita ou velada, literalmente praticada dentro de casa ou no âmbito familiar, entre indivíduos unidos por parentesco civil.Inclui inúmeras práticas , como a violência, abuso sexual contra crianças, maus tratos a idosos, violência sexual contra o parceiro e violência contra a mulher e o homem nos processos de separação litigiosa.
A violência física --- quando envolve agressão direta, destruição de objetos e pertences (às vezes patrimonial). Pode ser psicológica – quando se usa agressão verbal, ameaças, gestos, posturas agressivas , juridicamente produzindo danos morais. E a violência sócio-econômica—quando envolve o controle da vida social da vítima ou seus recursos econômicos.
O abandono e negligência quanto as crianças , parceiros e idosos é também considerado violência doméstica. A categoria descrita acima se enquadra nos casos interpessoais.
A categoria autodirigida , inclui os casos de comportamentos suicidas, especialmente os casos de suicido ampliado e comportamentos de auto-abuso.
Alguns casos de violência doméstica pode estar associados ao consumo de álcool e drogas.
Estatisticamente a violência contra a mulher é maior do que a contra as crianças e o homem .
Os relacionamentos familiares são extremamente particulares,há um componente subjetivo.Alguns casos há conivência velada de um dos conjuges o que dificulta identificar os casos. O poder num relacionamento envolve geralmente a percepção mútua e expectativas de reação de ambas as partes calcada nos preconceitos e/ou experiências vividas. Uma pessoa pode se considerar como subjugada no relacionamento, enquanto que um observador menos envolvido pode discordar disso.
As dificuldades de produzir informações fidedignas da amplitude destes agravos face a natureza burocrática dos sistemas de informação e cultura de omitir tais agravos, por medo, de que os mesmos se repitam , ou tornem mais intensos, ou por vergonha ou descrédito nas instituições resulta tanto na assistência inadequada a estas como no controle social do fenômeno da violência, ou seja a prevenção destas ocorrências e punição dos agressores.
O assunto e o fenômeno é complexo, de ocorrência mundial, com inúmeras redes de serviços e integrações de instituições, contudo ainda, as modificações institucionais envolvem determinações de natureza política e cultural de difícil compreensão e controle.
Hoje pela internet , pode se a cessar um serviço de ajuda a violência a mulher , ou uma delegacia mais próxima. Serviços psicológicos de assistência nas universidade possuem trabalho e grupos especializados no assunto, como na Universidade de São Paulo e no Sedes Sapientiae da PUC.
A vítima precisa querer se livrar de seu estado. Às vezes , muito difícil. Os profissionais devem ajudar sem julgamento , o que pode agravar e mesmo piorar alguns casos. O processo as vezes lento é desgastante tanto para a vítima como para os profissionais do assunto. Contudo , a violência doméstica, é um fato que acontece , se repete e aumenta a cada dia o número de vítimas que muitas vezes terão seqüelas futuras incuráveis.

Arte:Fabricio Matheus


TERÇA-FEIRA NA PAULISTA: ROTEIRO DE ARTE



Esta terça não trabalhei, fui à Paulista e caminhando visitei inúmeras exposições de arte. Todas gratuitas.
Comecemos pelo MASP, o maior e melhor museu da América Latina com uma coleção de clássicos da renascença italiana , holandeses e os famosos franceses entre eles Monet, Renoir, Degas , Toulose Lautrec. Entre os espanhóis : Picasso, Salvador Dali, El grego e Van Gogh. Da coleção do museu no segundo andar a exposição:Deuses e Madonas, a Arte do Sagrado e o Romantismo na Arte. A coleção do MASP é para ser vista e revista inúmeras vezes. No primeiro andar uma exposição de fotos de Wim Wenders: Lugares, Estranhos e Quietos , diretor do novo cinema alemão, famoso com o clássico Asas do Desejo(1987), Paris Texas (18984), nos mostra seu olhar atento para cenários vazios e desolados, céus amplos com enquadramento e cores perfeitas, são 23 imagens reunidas em viagens mundo afora, algumas fotos lembram os quadros e o vazio de Edwar Hooper(1882-1967).
No subsolo:Se não Neste Tempo—Pintura Alemã Contemporânea:1989—2010, reúne 83 trabalhos da vanguarda alemão de 26 expoentes mundiais da arte contemporânea, com pinturas que revelam uma diversidade de estilos da produção artística do país pós queda do Muro de Berlim.Muito interessante.
Do MASP, fui para o Itaú Cultural , onde à partir do dia 06 de novembro inaugurou-se a mostra “O Egito sob o Olhar de Napoleão”, com peças que registram a passagem de Napoleão Bonaparte pelo Egito. Com gravuras, matrizes das gravuras vindas do Louvre da coleção “Description de L’Egype” publicada em 1809.No prédio pode se visitar a exposição: Histórias de Mapas , Piratas e Tesouros...
No espaço Cultural Citi, no Citibank: Anotações Visuais de Aldemir Martins, com desenhos, estudos, rabiscos selecionados, que mostram a forma, o olhar, a intimidade que o artista tinha com o seu labor, linhas fluindo com fulgor, espantos que geram formas simples , cotidianas e poéticas.
No Sesi-SP- Centro Cultural Fiesp—Ruth Cardoso, além de uma exposição de design promovido pelo Senac, há a belíssima exposição: As Construções de Brasília.Comemorando o cinqüentenário da capital federal , em parceria com o Instituto Moreira Salles a exposição revela a singularidade de uma cidade para ser a sede do governo. Por meio de 140 imagens, divida na parte histórica na qual três fotógrafos registraram o processo de construção da cidade, o francês naturalizado brasileiro Marcel Gautherot (1910-1996) que mostra o dia-a –dia dos trabalhadores que ergueram a cidade e as formas suntuosas de Niemeyer, o alemão Peter Scheier(1908-1979) e o húngaro Thomaz Farlkas que registrou as primeiras favelas em torno do plano piloto da cidade.A segunda parte da exposição com artistas atuais como Cildo Meireles e Robert Polidori, com tom crítico à antiga utopia sobre a sede do poder servir de farol para a modernização do pais. Vale muito a pena.
Terminamos o passeio pela Caixa Cultural—Galeria Vitrine da Paulista – com as esculturas, formas e relevos do escultor grego radicado no Brasil :Nicolas Vlavianos, com peças criadas sobretudo com aço, rebites, soldas , com aspectos abstratos e livres que ocupam e transformam espaços.
Quanta coisa para assimilar numa tarde ensolarada de terça.Com caminhadas.Respiro por entre o trânsito caótico da metrópole , imagens e formas mil pela retina e alma, por apenas dois passes de metro.

Fotos :Fabricio Matheus

 


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

QUEM TEM MEDO DE CURUPIRA?


Eu felizmente nasci rodeado de lendas. No corredor de minha casa de infância, os quadros eram de amazonas voadoras, noites enluaradas, mãe d’águas. Minha avô Alzira, exímia cozinheira e contadora de histórias, trabalhou na fazenda de um inglês que atravessou o atlântico e veio se estabelecer perto da região das cabaças. Na sua travessia pelo novo mundo além de trazer tiaras de diamantes , vestidos de fio de prata... cruzou com sereias cujos cantos afundavam navios encantando os homens que tinham tampar os ouvidos para escaparem de seus encantos.Lendas de diamantes que rolavam como fogo brilhando nas correntezas dos córregos. Muita morte pelas pedras preciosas, muita traição. E os lobisomens, tinha certeza que o senhor que morava no final da rua ainda de terra era um... E os tesouros escondidos nas moelas das galinhas que usava nos seus cozidos.Quantas histórias....
As histórias de minha avó se misturavam as histórias de minha mãe, que se misturavam nas histórias lidas, entre elas : o encantado mundo de Monteiro Lobato no Sítio do pica-pau amarelo, povoado de sacis, mulas-sem-cabeças, cucas, boitatás e outros seres fantásticos e lendas do nosso folclore.Todo esse mundo encantado e cheio de mistério, lúdico povoa minha imaginação até hoje.Ali , aprendi como caçar sacis, que vêem nos redemunhos. Já vi a Iara com seu espelho e sua cauda prateada , já escutei o uivo do lobisomen em noites de lua cheia e ouvi o relinchar de mulas sem cabeças e as pegadas do curupira.
O folclore e um gênero da cultura de origem popular, constituída pelos costumes e tradições populares transmitidos de geração em geração.As lendas são narrativas fantasiosas transmitidas pela tradição oral através do tempo.Tudo isso é parte da rica cultura brasileira,repletas de lendas criativas e instigantes.
E esse encantamento me levou a assistir a montagem infanto –juvenil escrita e com direção musical de Zeca Baleiro :Quem tem medo de curupira, em cartaz no teatro Sesi.
Desacreditados e com o orgulho ferido, Saci, Caipora, Boitatá, Curupira e Iara resolvem-se aventurar numa viagem até a cidade , para tentar descobrir porque as pessoas deixaram de crer na sua existência. Apesar da dramaturgia ser um pouco solta, podendo sugerir muitos significados e leituras, como diz o autor:”Entre todos fico com o mais banal e precioso—o sonho, a imaginação , o encantamento, raros no mundo. Por isso tão necessário”.
A simples menção do nome destes duendes das matas , já desperta a curiosidade do público.As aventuras costuradas com música rock, pop e rap da melhor qualidade, com direção geral de Débora Dubois e concepção de Duda Arruk, responsável pela direção de arte e cenografia, construída com sucatas de automóveis e com projeções luminares e a iluminação de Wagner Pinto, que promovem um colorido especial para despertar a atenção dos jovens , hoje tão entretidos com seus celulares e i-phones.
Ótima música como já falei, ótimos atores , com destaque sempre para Danilo Grangheia nos papéis de Serra Madeira, Jacarandá e Índio.
Quem tem medo de curupira é um presente para São Paulo, tão metropolitana, tão selva de pedra. Como é dito no programa: a peça nos faz refletir sobre a brasilidade e a intersecção entre a vida na mata e no meio urbano. Um forma fresca de ver o país . Um ótimo espetáculo que cumpre a função primordial do teatro: A transformação que os seres fantásticos da mata sofrem quando deparam com o desconhecido se fará em nós.

Fotos: João Caldas de divulgação do espetáculo.



EDUCAÇÃO PARTE I


O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”.I.Kant

A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”Paulo Freire

A canditada eleita a presidente do Brasil Dima Roussef, questionada sobre os programas de educação de seu governo, respondeu que esta área não lhe causa problema pois estava sob controle. No dia 04 de novembro de 2010,publicado mundialmente o IDH, no qual o Brasil ocupa a 73 posição na lista tendo caído 2 pontos em relação a 2009, o que o mantém apesar de seu potencial como nação de primeiro mundo no grupo de países subdesenvolvidos, em desenvolvimento médio.
O IDH,Índice de Desenvolvimento Humano , é uma medida comparativa usada para classificar os países pelo seu grau de “desenvolvimento humano” e para separar os países desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos. A estatística é composta a partir de dados de expectativa de vida ao nascer ( que leva em conta saúde e saneamento básico), educação (taxa de alfabetização de pessoas com 15 anos ou mais e taxa de escolaridade) e PIB per capita (como indicador de padrão de vida)/renda medida em dolar: indica o poder de compra.
O IDH aplicado para as regiões sul e sudeste colocam o Brasil ao nível de desenvolvimento muito elevado. Ainda a grande disparidade entre as regiões brasileiras: O norte e nordeste subdesenvolvido versus o sul e sudeste desenvolvido.
A educação é o princípio básico mais importante para o desenvolvimento de um país, através do conhecimento o país enriquece uma fonte de qualidade de vida para a população, apesar do país ter evoluído lentamente nestes últimos anos com projeto governamentais neste tema, o avanço ainda não é o suficiente para atingir a todos os habitantes. Outra questão : É a deterioração do ensino, a baixa qualidade e o desestímulo dos professores.
Na revista Veja de 10 de novembro 2010, o especialista em educação Gustavo Loschpe , inicia uma série de artigos denominado: Como melhorar a educação brasileira.Idéias que compartilho e resumo abaixo.
Segundo o colunista, o caminho para melhorar a educação está na junção de três fatores:práticas de sala de aula, formação dos professores e administração escolar.
Mesmo com o baixo nível de formação escolar dos professores, há uma série de medidas que podem ser aplicadas para melhorar o desempenho do aluno, o aprendizado. Todas as soluções apresentadas foram estudadas, testada e tratadas com rigor estatístico, portanto, não são opiniões nem hipóteses.
O tempo de contato entre o aluno e o professor é muito valioso e escasso e deve ser usado apenas para atividades educacionais.Tudo aquilo que pode ser feito fora da sala de aula deve ser feito fora da sala de aula.
É de suma importância o suo eficiente do tempo de aula. Muitos professores chegam atrasados, perdem tempo dando recados e advertências, fazendo chamada. Ou enchendo o quadro negro de matéria e pedir aos alunos que a copiem, depois passar exercícios e pedir-lhes que os resolvam e finalmente, se sobrar tempo , tirar uma dúvida ou outra.É um erro. Copiar texto é algo que pode ser feito em casa. Exercícios também. O tempo de sala de aula deveria servir para que professores e alunos conversassem sobre o texto que foi lido em casa e os exercícios feitos em casa.
A segunda prática virtuosa, é o dever de casa.É notório, que quem têm de fazer dever de casa mais frequentemente, aprende mais, especialmente a partir da 4 série.
Alguns exercícios em sala de aula são contraproducentes.Subtraem tempo de aula para algo que o aluno pode fazer em casa.
Na mesma lógica está a questão das provas: alunos que são testados com maior freqüência aprendem mais.Faz sentido:quanto mais provas , mais o aluno tem de estudar. Quanto mais estudo , mais aprende.
Material didáticos ajudam, a formação do mestre ajuda. É sabido que o professor que cursou faculdade da disciplina que ensina dará uma aula melhor do que outro formado em outra disciplina que leciona a mesma matéria. A tecnologia e a infraestrutura são importantes , mas não determinantes para o aprendizado.Todas estas medidas descritas acima são práticas simples e extremamente eficazes: -- um bom começo para melhorar a educação no país.

Foto: Robson Martins

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

BULLYING


"O mundo é perigoso não por causa daqueles que fazem o mal,
mas por causa daqueles que vêem e deixam o mal ser feito." Albert Einstein



Você já sofreu algum tipo de violência? Na escola ? No trabalho? Já tiraram sarro da sua cara de forma que você não sabia onde se enfiar?O seu filho já se queixou que zombam dele na escola? Algum colega já te bateu , ou chantageou? Você já foi vítima, ou esteve próximo de uma vítima de alguma violência e esta violência se estendeu até você?Já falaram mal de sua família na escola? Já espalharam boatos sobre você na escola?Já sacanearam com os seus pertences?Já te obrigaram a fazer algo que você não queria e você só fez para ser aprovado pelo grupo?Já se sentiu humilhado por ser quem você é?Você já sentiu humilharem seus pais e isso lhe doeu?
Já sentiu que seus pais mentiam sobre alguma doença na família? Já te esconderam uma verdade que estava as caras de tão transparente e você se sentiu diminuído e sem valor? Já te mentiram sobre uma doença na família?
Na semana passada assisti na Mostra Internacional de Cinema o filme dinamarquês Haeven, ou Por um mundo melhor, dirigido por Susanne Bier e com roteiro da mesma e de Anders Thomas Jensen, que trata deste tema. Outros filmes atuais , como As melhores coisas do mundo de Laís Bodansky também mexe com o assunto.
Não é fácil crescer, nem para os filhos e nem para os pais. Mas viver é crescer sempre, e crescer dói. Dói ver que nossos filhos cresceram. Que talvez não nos tenha por perto. E dói perdê-los para o mundo. Dói para o filho, crescer e ser aceito pelos colegas, na escola, facul, pela garota ou garoto que apaixonamos. Dói querer ser alguém; e quem somos nós afinal?
No filme de Susanne , um garoto é humilhado na escola por seus colegas. Com a chegada de um novo aluno, que se apieda dele e enfrenta a gangue que zomba dele. Acontece que o novo aluno acabou de perder a mãe. E acha que o mundo está contra ele. Por outro lado, a família do garoto que é constantemente humilhado está abalada com uma recente separação. Seu pai trabalha como médico na Àfrica e atende centenas de vítimas da violência e fome, principalmente mulheres molestadas. Até o dia em que chega para ser atendido, o grande chefe , o que praticava impiedosamente a violência que ele sanava.Tentando ser aceito na escola , e pelo seu único amigo, o garoto cuja família, preza tanto a não violência acaba por aceitar participar de uma ato vingativo que quase lhe tira a vida.Aos poucos, o outro, que estava de mal com a vida, percebe que seu pai escondeu a doença de sua mãe para lhe proteger, por amor...e outros fatos acontecem nesta trama muito bem escrita.
No filme de Laís Bodansky, Mano tenta ser alguém na escola, ser amado pela garota que ele gosta. Ser aceito pela turma e acabar com a violência da escola, que zoa de alguns escolhidos , inclusive ele, cujos pais se separaram, por um motivo pouco comum.
Será que às vezes a paixão não é mera ilusão e o amor ou mesmo a paixão está do nosso lado, nas nossas melhores amigas e vamos buscar o desejo lá longe.... Como aceitar nossos pais como eles são? E como aceitar nossos filhos? Como estar perto dos filhos e continuar pais. Uma das funções básicas da maternidade e paternidade é a educação. Educar é muitas vezes podar, dizer:--NÃO! Como sermos nós mesmos e estarmos juntos de nossos pais? Como conversar com os pais sem deixar de ser filho e sem nos afastarmos deles? A família, a educação na família é uma das preciosidades da vida, dificílima, hercúlea tarefa, certamente a mais gratificante.
O Bullying é um termo inglês , muito atual, é usado para descrever atos de violência física ou psicológica,intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully -  ou valentão) ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos) incapaz(es) de se defender. Também existem as vítimas/agressoras, ou autores/alvos, que em determinados momentos cometem agressões, porém também são vítimas de bullying pela turma.
A violência está muitas vezes mais próximas do que imaginamos, às vezes nas telas dos computadores. As informações abundantes muitas vezes nos violentam. Qual a saída? Qual o caminho?
Como as coisas do amor, a violência só é tratada e combatida com amor. Temos que ter cuidado com os nossos e com nos mesmos. Estar presente na vida e no dia-a –dia dos filhos, conjuges , amigos.... Sempre alerta, e sempre prontos para conversar, perguntar , dar e pedir ajuda. Só o entendimento mútuo, com respeito e atenção construirá e fará um mundo melhor. Primeiro temos que construir o dentro de nós e depois pouco a pouco o fora de nós....É dever moral e ético deixarmos o mundo melhor do que encontramos.

PS:Já em DVD o filme espanhol Bullying do diretor Josecho San Mateo. Segundo dados da União Européia 39% das crianças são vítimas de Bullying, sendo mais frequente no Reino Unido, na Espanha 25% o que significa 1 em cada 4 ciranças e o mais alarmante é que o Bullying continua crescendo e fazendo vítimas.Somos responsáveis por isso!

Arte:Fabricio Matheus
Fotos :Fabricio Matheus, exceto a foto 4 do filme Haeven.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

AS QUATRO IRMÃS(Psicoantropologia Fake ) de Caio F.Abreu


"Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade."

"Penso, com mágoa, que o relacionamento da gente sempre foi um tanto unilateral, sei lá, não quero ser injusto nem nada - apenas me ferem muito esses teus silêncios."

"É dificil aprisionar os que tem asas"

"Penso: quando você não tem amor, você ainda tem as estradas."CFAbreu

Reza não muito antiga lenda que homossexuais masculinos de qualquer idade ou nação – além de bofe , bicha , tia ou denominação similar—dividem-se em quatro grupos distintos. Seriam na verdade, sempre seguindo a lenda, quatro irmãos que atendem por nomes femininos. A saber essa ordem arbitrária não implica cronologia nem preferência:Jacira, Telma , Irma e Irene.
Para começo de conversa , vamos a mais popular delas: a Jacira. Suficientemente conhecida: Jaci.Das quatro irmãs, Jacira é aquela que todo mundo sabe que é homossexual, e ela mesma – que se refere-se a si própria , seja qual for seu nome, sempre no feminino — acha ótimo ser. A Jacira usa roupas e cores chamativas, fala alto em público, geralmente anda em grupos de amigas também Jaciras como ela, todas exercendo o velho hábito de fechar. Como diria Antônio Bivar, é uma pintosa. Uma pintosa assumida, despudorada. Sempre foi bicha, adora ser bicha e, maniqueísta como ela só, continua achando que a humanidade divide-se entre bofes e bicha, categoria esta última na qual inclui. Com orgulho.Superinformada, embora não leia muita(existem Jaciras negrinhas, analfabetas), ela sempre sabe – de orelhada – TUDO que está em cartaz na cidade. Fofocas de televisão são seu forte , principalmente aquelas que insinuam viperinas dubiedades sobre a sexualidade alheia. Ao entrar em qualquer ambiente, uma Jacira sempre é imediatamente notada. O que satisfaz seu rincipal , e talvez único objetivo na vida:aparecer.
Bem menos luminosa e sem graça que a Jacira é : a Telma. Ao contrário da Jacira , a Telma é infelicíssima. Ela bebe . Bebe para esquecer que poderia ser homosssexual. O problema é que, exatamente quando bebe , mais exatamente ainda depois do terceiro ou quarto uísque, é que a Telma transforma-se em homo. Embriagada, Telma ataca. E dramaticamente, na manhã seguinte não lembra de nada. Embora a Telma fique muito erotizada em estado etílico, ela sempre nega que é, e negará até a morte. A única solução pra uma Telma empedernida seria a psicanálise ( que ela a mais doente, acha que não precisa) ou parar de beber. O que , por tabela , significaria também parar de trepar. Pobres Telmas -- categoria da qual países como o Brasil(vide academias de ginástica, futebol , chopadas com o pessoal da repartição, etc) está cheio.
Menos trágica, mais ainda complexa , é a terceira irmã: a Irma. As Irmas não são exatamente infelizes – pelo menos, não tanto quanto as Telmas --, embora bem menos felizes que as Jaciras – que aparentam ser e realmente são felicíssimas. Irma é toda aquela que todo mundo jura que é, incluindo a mãe, a irmã e a esposa(irmãs casam muito)—mas ela mesmo não sabe que é. Não sabe ou finge que não. A Irma dá quase tanta pinta como a Jacira, adota o folclore gay, de Carmem Miranda a Madonna. Há quem diga que as Irmas costumam ser mal-dotadas, impotentes, dessas assim. Pode ser. A verdade é, quando casadas, as esposas das Irmas raramente exibem ar muito satisfeito. Sexualmente satisfeito. Irmas costumam ser afáveis – ao contrário das problemáticas Telmas , introvertidas e depressivas.Adoram Jaciras, apesar destas gostarem de chamá-las , sobretudo em público e aos gritos , de “queridas”.É que toda Jacira sabe – ou supõem – que no fundo toda Irma é tão Jacira quanto ela. Mas como as Telmas, Irmas fogem de definições. E ao contrário das Telmas muito pecadoras, podem até morrer sem se atreverem a provar os prazeres do – para citar uma Jacira clássica—amor que não ousa dizer seu próprio, etc.
Inicialmente limitada a essas três, a lenda recentemente inclui a existência de uma quarta irmã: a Irene. Tão assumida quanto a Jacira, ao contrário desta , a Irene não dá pinta. Ela é, sabe que é, mas não exibe nem constrange. Pode até usar brinquinho na orelha, dar alguma rabanada menos comedida, ou mesmo – de brincadeira – referir-se a si mesma ou alguma amiga no feminino Mas a Irene é tranqüila. Geralmente analisada, culta, bom nível social, numa palavra – Irene parece serena em relação à própria sexualidade. Que é diversificada. Podem tel longos casos, morar junto, ou vivenciarem certas idiossincrasias eróticas. Só gostarem de working class, por exemplo, ou de adolescentes, choferes de taxi ou estudantes de física. Ou de Irenes como elas:são as Irenes lésbicas, bastante comuns e conhecidas, literalmente, como gays. Telmas e Irmas escondem tudo da família, vizinhos e colegas, embora Irma praticamente não tenha nada a esconder. Jaciras não escondem coisa alguma, explicitérrimas. Irenes deixam no ar: se alguém perceber, que perceba. Educação é básico para elas.Serenamente educadas, pois , às vezes até casam. Com mulheres.
Entre as quatro, desgraçadamente as relações são turbulentas. Jaciras, por exemplo, adoram seduzir Telmas.Estas (quando sóbrias, claro) têm medo , pânico de Jaciras. Irenes , por sua vez, nutrem uma espécie de carinho apiedado pelas desventuradas Telmas – e isso até pode resultar numa ardente noite de paixão entre ambas. Da qual naturalmente a Telma jamais lembrará, embora tenha feito horrores. O grande risco que toda Irene corre é apaixonar-se por uma Telma:comerá o pão que o Diabo amassou, até entrar noutra. Com a Irma, de quem Irene também gosta , o risco não é tão grave: Irene sabem que coms as Irmas não rola. E pode assim transformar tudo numa aparentemente saudável “amizade viril”: as duas fingindo , para usar a terminologia antiga, que são bofes. Há quem creia.
Jaciras não simpatizam muito com Irenes, acham-nas “metidas”.A recíproca é verdadeira:Irenes acham Jaciras pintosas demais, apesar de divertidas, folclóricas. E incovenintes. E com imperdoável mania de roubar namorados alheios. Irenes adoram namorar, pegar na mão , ir ao cinema , comer pizza, ver TV – tudo isso together. Já Telmas e Irenes , entre si , são hostis. Talvez uma tema o julgamento da outra, vai saber. Irmas , no entanto, às vezes podem ceder aso insistentes encantos das Jaciras. Existem mesmo certas Irmas que algumas Jaciras – para ódio das Irenes – juram já ter feito. Na verdade, Telmas , Irenes e Jaciras invejam um pouco aquela impressão(nem sempre verdadeira) de pureza que toda Irma passa. Assim como se estivesse por fora de qualquer grupo de risco.
Clássicas ou contemporâneas, cada uma busca apenas essa coisa – o amor: a Ancestral Sede Antropológica. O que pode acontecer são transmutações: Irenes que se ajaciram; Irmas (com tendência etílica) que viram Telmas;Telmas que -- bem comidas – se irenizam ou mesmo ajaciram, etc. As mutações são tantas quanto as do I Ching. Há quem diga que essas novas identidades têm até nome, como as Juremas (Jaciras que se tronam Irenes ) ou Jandiras (Jaciras exacerbadas).
Pode ser. Mas segundo nossos estudos, Jaciras são inabaláveis, intransmutáveis. Jacira que é Jacira nasce Jacira , vive Jacira , morre Jacira. No fundo, achado o tempo todo que Telmas, Irmas e Irenes não passam de Jacira tão loucas quanto elas.
E talvez tenha razão.

Obs: Está crônica escrita pelo Caio com alguns cortes , foi publicada pela primeira vez na exitinta revista Sui Generis em março de 1996.

Foto: Fabricio Matheus do grafite da 23 osgemeos