quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

KUMARI, A DEUSA VIVA



“As pessoas beijavam os seus pés. Algumas as lavavam e depois bebiam a água, porque pensavam que era um bom remédio”


“No Nepal, todas as menininhas sonham em ser Kumari.”

“Em nosso país, onde a mulher é normalmente pouco respeitada, o costume da Kumari impõe a todos venerar uma criança, símbolo da inocência , pureza e feminilidade.É Algo muito positivo”Mulher nepaleza dirigente do turismo do país.



O culto ou veneração a Kumari, ou Kumari Devi é o título concedido no Nepal às meninas pré-púberes , símbolo da pureza, cuja palavra significa virgem, pura. Escolhida e selecionada pelos budistas nepalezes de Newari,em torno de 3 anos, considerada o aspecto vivo da Deusa Durga ou Taleju, selecionada no clã Shakya, supostamente uma parente distante do Buda Shakyamuni.São idolatradas por alguns hinduístas e budistas nepalezes. Há três cidades no páis com Kumaris, Patan, Bhaaktapur e a mais famosa na capital Katmandu, no Palácio Kumari Ghar, onde duas vezes por dia é saudada por uma multidão entre devotos e turistas para ver sua princesa divina.
É uma honra para a família nepaleza, desde as altas castas as aldeias, ter uma menina escolhida como Kumari. A menina pérola escolhida têm que possuir 32 qualidades exigidas entre elas: pele perfeita, traços particularmente finos, angelical, cabelos e olhos negros, olhos grandes e sagrados como os das vacas, pescoço de naja, tórax de leoa, pernas de tigresa, voz macia e sedosa, corpo esguio como uma árvore , vinte dentes...todas são muito semelhantes . Apresentando tais características, é escolhida pelo astrólogo real, e submetida à prova final , na qual é trancada em uma sala do templo cheia de cabeças de animais ensangüentadas. Se ela se mostrar amedrontada, se chorar, é desclassificada A Deusa têm que ser forte e não temer a nada.
A escolhida viverá reclusa de sua família, cercada por tutores e educadores palacianos e guardiões. A Kumari somente deixa seu palácio, nos dias festivos e para visitar a família imperial. Uma delas que foi para os Estados Unidos , foi considerada impura e perdeu seu trono.
Infelizmente, seu reinado é curto, quando menstrua pela primeira vez, perde a tal sagrada pureza, renuncia-se ao título mediante cerimônias próprias que abrem caminho para a escolha da sucessora.
Cabe a antiga Kumari , voltar para o seu ambiente, lar e família de outrora, desprovida das regalias que a cercavam. Há uma lenda que o homem que se casa com uma ex-Kumari terá uma morte violenta e súbita, o que afastam seus pretendentes e as relegam a um mundo solitário de memórias, recordações, nostalgias... Algumas se matam, outras enlouquecem...Isto, hoje, têm dificultado as autoridades nepalezas a recrutar candidatas entre as famílias Shakya.
É impressionante, estar no patio do Kumarri Ghar em Katmandu, defronte o balcão e observar a imponência, altivez, beleza e a realeza da pequena divindade, principalmente depois de saber sua história. Saber das agrúrias e dissabores que seguirão seu destino tão logo vire mulher.




Arte:Fabricio Matheus

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O ABORTO DOS OUTROS




No caderno Aliás, a semana revista do Jornal O Estado de São Paulo de domingo 06 de dezembro de 2009 na página J8, com o título : Notas sobre um Mistério, descreve a reportagem da médica Neide Mota Machado, anestesiologista ,que tinha uma clínica de planejamento familiar no Mato Grosso que realizava abortos.
A médica foi presa por 31 dias , teve seu diploma cassado pelo Conselho Federal de Medicina , acusada pelo Ministério Público de prática de aborto , apologia ao crime e formação de quadrilha. A clínica foi fechada e os advogados do Ministério Público Estadual puderam ter acesso aos documentos e nomes das pacientes da clínica.
No domingo passado, a médica Neide foi encontrada morta no seu carro, com seringas e uma carta com os seguintes dizeres: “...que não houvesse pânico, nem trauma, nem dor...” Há dois dias, na sexta, havia registrado em cartório seu desejo de ser cremada.Será esta história , o aniquilamento de corpo e alma que sofrem aqueles que mergulham numa questão tão controversa como o aborto?
No domingo dia 06 de dezembro, estava de plantão, logo após ler a notícia transcrita ligaram-me do hospital. Havia um pedido de ultra-sonografia de uma jovem de 15 anos com hemorragia intensa, necessitando de transfusão.Anexado ao pedido médico, um bilhete com letras garrafais para falar com a médica antes de realizar o exame. A mesma me disse que a paciente tinha uma hemorragia severa , que ela havia solicitado uma ultra-sonografia transvaginal, mas que a mãe não sabia que a filha não era mais virgem.
Fiz o exame com uma enfermeira ao lado e assim a mãe permitiu a filha ficar sozinha na sala. Logo a menina me disse que tinha relações e que usava preservativos, que a última menstruação tinha sido normal e que a hemorragia intensa aconteceu no meio do ciclo. Após terminar o exame liguei para a médica  pedindo  que solicitasse um BHCG, marcador sanguíneo de gravidez, pois se tratava de um aborto incompleto e a garota continuava a sangrar. Em seguida, a médica confirmou-me o exame positivo e a paciente foi submetida a uma curetagem, transfusão sanguínea e felizmente passa bem.Na manhã seguinte a enfermeira contou-me que a mãe fez um escândalo, dizia que iria chamar a polícia e que a garota namorava há seis meses um rapaz de 19 anos que estava com os amigos assistindo a vitória do Flamengo.
Quando ainda estava na Faculdade de Medicina , minha irmã apresentou um prurido vaginal. Meus pais pediram que eu a acompanhasse ao médico, pois morávamos juntos na época. A primeira pergunta que o médico fez foi: De quanto tempo ela estava grávida. Minha irmã que não havia tido relações sexuais até então ficou chocada. Depois vim a saber que este médico realizava abortos.
O aborto no Brasil é considerado “crime contra a vida” pelo Código Penal Brasileiro, prevendo detenção de 1 a 10 anos. O artigo 128 do Código Penal dispões que não se pune o crime de aborto nas seguintes hipóteses:
1- Quando não há meio para salvar a vida da mãe;
2- Quando a gravidez resulta de estupro.
Segundo os juristas, a “não punição” não necessariamente deve ser interpretada como exceção à natureza criminosa do ato, mas como um caso de escusa absolutória que não tornaria , portanto , o ato lícito.
O artigo 124 do Código Penal Brasileiro pune com detenção de 1 a 3 anos , o aborto provocado pela gestante ou com o consentimento da mesma. O artigo 125, pune com reclusão de 3 a 10 anos , o aborto provocado por terceiros sem consentimento da gestante.
Para a lei e a jurisprudência brasileira “pode ocorrer aborto desde que tenha havido a fecundação”. A legalização do aborto no Brasil ainda está em votação.
Países como o Canadá, Cuba , Estados Unidos da América exceto Dakota do Sul, Alemanha, Aústria , Dinamarca, Suiça, Bélgica, França, Itália, Holanda, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia, Noruega, China, Austrália, Nova Zelândia, Bulgária , Polônia e outros têm em sua legislação a permissão do aborto até 12 semanas e em alguns países até 20 semanas.
Segundo a última pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi, apenas 16% da população brasileira concorda que o aborto seja permitido em caso de gravidez indesejada. A mesma pesquisa mostra que o aborto incompleto, provocado, mata 70 mil mulheres por ano.


Dica: Assista aos filmes Vera Drake de Mike Leigh e Um assunto de Mulheres de Claude Chabrol com Isabelle Huppert.

Arte:Fabricio Matheus. Ultra-sonografia de um embrião de 7 semanas com mapeamento color-doppler da circulação feto-placentária.

domingo, 6 de dezembro de 2009

TERAPIA AFIRMATIVA





Para Klecius Borges e Wladimir Ganzelevitch


Em 1985, a Organização Mundial da Saúde(OMS) passou a adotar o termo “homossexualidade” em substituição a “homossexualismo”, que aparecia no Código Internacional de Doenças (CID) na categoria “distúrbio mental”. O objetivo era evitar o sufixo “ismo” tradicionalmente associado a doença.
Em decorrência dessa nova mudança, o foco de pesquisas sobre a homossexualidade deixou de ser simplesmente a demonstração de sua “normalidade” e passou a abranger inúmeras questões : como o estabelecimento das identidades lésbica, gay e bissexual; a formação de relações entre pessoas do mesmo sexo;os processos de desenvolvimento da sexualidade, a homofobia e a discriminação sofrida por gays e lésbicas; as questões relativas a maternidade e paternidade ; a diversidade cultural e a ética entre os grupos; as questões sobre as escolhas e as práticas sexuais.
A Terapia Afirmativa busca uma compreensão mais profunda das questões particulares dos gays , lésbicas e bissexuais, assim como o desenvolvimento de modelos teóricos e clínicos mais adequados. A Terapia Afirmativa considera a homofobia, e não a homossexualidade em si, como a variável patológica mais importante para o desenvolvimento de certas condições sintomáticas encontradas em homossexuais. O terapeuta afirmativo além da atenção e apreço pelo paciente, respeito pela orientação sexual, pela integridade pessoal, pela cultura e estilo de vida, há que ter um profundo respeito por suas próprias crenças e atitudes e se dispor a examinar os próprios preconceitos à respeito das orientações sexuais diferentes da sua.
Em março de 1999, o Conselho Federal de Psicologia publicou a Resolução n.001/1999, que estabelece as normas de atuação para psicólogos em relação à orientação sexual.
Estava à procura de um Terapeuta/ Analista e fiz algumas entrevistas e visitas a Analistas indicados, alguns filiados a Sociedade Brasileira de Psicanálise, cujos consultórios eram verdadeiras catedrais góticas, luz em penumbra, música barroca ou gregoriana, parecia que estava em  um confessionário. Finalmente cheguei ao Wladimir, houve uma empatia imediata de minha alma, horários e honorários. Mas ele me disse que antes de decidir, eu deveria marcar uma entrevista com outra pessoa que ele deslizou lentamente o cartão. O cartão , além do nome do terapeuta:Klecius Borges, sua foto; estava escrito “Terapia Afirmativa para Gays, Lésbicas e bissexuais e que ele tinha uma coluna na G Magazine... Senti um embrulho não no estômago , mas na Alma. Eu , recém chegado da Índia, iluminadíssimo, já tinha contado para meus pais, banhado no Ganges, passado pela Juíza e me achando o ser mais aberto e menos preconceituoso do mundo. Neste momento começou minha análise e minha descoberta, a viagem à escuridão de minha alma.
O cartão me fez um mal terrível,  senti que tinha que marcar a tal entrevista. Para minha surpresa , O Klecius era mais vivido e experiente que a foto do cartão. Mas a sua atenção, franqueza e verdade cativaram-me de súbito. Comecei a fazer terapia com o Wladimir e entrei na terapia de grupo com o Klecius.
Inicialmente foi difícil humanizar-me, talvez julgava-me superior, ou mais simples: O MEDO. Com o tempo, fui transformando minha dor e sofrimento represado e dividindo com meus terapeutas e meus colegas de terapia, que com suas dores e amores tanto me ensinaram e fizeram-me crescer: AMAR.
Foi um longo caminho, anos , posteriormente fiquei com a terapia individual com o Klecius e o grupo, depois só individual e depois por falta de tempo e porquê talvez, coisa de aquariano, às vezes, quero suportar sozinho a dor e a delícia de minha vida.
O Klecius sonhou comigo o sonho de minha alma. O meu desejo era o seu desejo. Ainda hoje sinto-me protegido como Dante por estes dois Virgílios. Sonho sempre com o Klécius. Em um dos sonhos , ele foi a uma de minhas estréias teatrais com dois buquês de flores vermelhas e entregou os dois para um outro ator. Neste período minha vida amorosa e o trabalho estavam em crise e seriam os dois buquês que eu não merecia, talvez outra interpretação???..Ultimamente, antes de escrever estes temas no Blog, tenho sonhado constantemente que sou multado e o Klécius se aproxima no meu desespero e me diz para seguir avante que ele paga a multa....
A literatura Gay é uma forma de aumentar a auto -estima e avaliar a homofobia. Na OUT magazine de dez09 e jan10, saiu várias entrevistas com escritores Gays, da nova geração: David Leavitt. E da considerada velha geração: Felice Picano , Andrew Holtern e  Edmund White.
Edmund White é um grande escritor gay americano, entre as biografias de Proust, Rimbaud e Jean Genet, há crônicas e histórias do mundo e submundo gay. Ele visitou várias cidades americanas e descreve com precisão e detalhes os locais gays. Escreveu outro livro que é um dicionário sexual para gays, que teve que ser reescrito com o advento da AIDS. White fará 70 anos no dia 13 de janeiro de 2010, é um exemplo. Está casado pela segunda vez, com um homem muito mais jovem e feliz. Tão feliz, que às vezes , como  escreve, ele próprio não acredita na sua felicidade.

Maiores informações:

Arte:Fabricio Matheus


sábado, 5 de dezembro de 2009

BORTOLOTTO




Fiquei chocado com o que aconteceu com o Marião. Um sujeito da PAZ, do Teatro, do amor. Conheci o Mário no SANTIDADE dirigido pelo Fauzi Arap, depois Kerouac e Cemitério dos Automóveis, grande HOMEM. Já fui vítma da violênica urbana, sequestrado, felizmente não baleado e conversava muito como o  seu chapa, o TONHÃO, ator e seu companheiro da  peça Santidade. Vi o Mário pela última vez na peça do Rubens Paiva e sempre sabia do que acontecia com ele pelo Facebook. Eu tô aqui torcendo, rezando e com FÉ QUE tudo se resolva bem . São Paulo , o teatro,o Brasil e eu precisamos  muito do Mário.Muita força , luz e que Deus te conserve entre nós.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ODE A FORÇA FEMININA





P/ MiriamK


A primeira imagem é a réplica da mais antiga estátua , a Deusa Mãe Cybele, do museu das civilizações Anatolie de Ankara naTurquia, deusa da terra e da fertilidade e de uma época em que a força feminina era igual ou superior a masculina,  a era do Matriarcado. Data de 6.800 a..C do período neolítico ou da pedra pólida, quando começa o desenvolvimento da agricultura e os homens tinham que louvar a mulher terra e mãe e inicia a organização da vida comunitária. O Neolítico historicamente termina com o surgimento da escrita e é o último período da pré-história, a sua transição para a Idade dos Metais (Bronze e Ferro) , caracteriza a transição da pré-história para a história.
A segunda é da Deusa Artemis do Templo de Artemis ou Diana de Ephesus que glorifica a deusa das caças e dos animais e foi uma das sete maravilhas do mundo antigo no século VI a.C.
A terceira é a conhecida Vitória de Samotrácia, da deusa graga Nike, a Deusa da Vitória que provalvelmente celebra a vitória naval de Rhodes e data de 220 a 190 a.C. Estas são imagens e exemplos de um período em que a importância da mulher era superior a do homem.Um período em que as mulheres tinham sua força e eram sagradas.
Inevitavelmente o Cristianismo e a Igreja católica com a Inquisição levou a humanidade a séculos de atraso cultural e relegou o privilégio e a força feminina dos períodos pré-históricos e históricos à dominação masculina e ao Patriarcado, até hoje na hierarquia da igreja a mulher é submissa ao homem .  O mesmo ocorre em outras religiões monoteístas como o judaísmo e outras.Os best –sellers O Código de da Vinci e O Nome da Rosa, trata um pouco sobre o tema, .
Biologicamente a fêmea , pela reprodução, é mais desenvolvida e adaptada as intempéries do meio que o macho, e têm uma sobrevida maior que o macho em todas as espécies , inclusive na humana. O feto feminino têm maior chance de sobrevivência em gestações de risco que o masculino. Como médico e principalmente , ginecologista e obstetra, sou cercado diariamente pelas histórias e dores da mulheres, e certamente, a força feminina é infinitamente superior a masculina em relação aos problemas. Todo ser humano é único, mas a mulher é uma fênix renascida.
Inegavelmente a mulher sofreu e sofre com o domínio masculino , mas foi a luta e está na luta diária e escreveu e escreve sua história com sangue. A revolução industrial exigiu sua força de trabalho. Subjulgada e com a sua luta diária, ela mostrou a que veio. Se hoje na Europa e outros países existe o Women in Progress certamente não foi pela bondade masculina. E esta conversa surgiu numa mesa de bar em que um amigo gay criticava . E minha amiga dinamarquesa , que adora a Escrava Izaura, símbolo da  Liberdade, e eu dissemos  que ele deveria lutar pelos seus direitos como as mulheres o fizeram.  Quantos anos de sofrimento têm na alma a mulher negra?.
Cada ser é único e com sua beleza e cabe a cada um lutar pelos seus direitos para uma vida melhor e um mundo melhor. Na minha história e na minha família sou cercado de mulheres guerreiras. Minha mãe trabalhou a vida inteira, nos três períodos: manhã , tarde e noite. Trabalhou e trabalha pela comunidade, criou a faculdade de minha cidade, sem nenhum mérito a sua pessoa e aposentou com um salário vergonhoso. Foi criada por outra guerreira, filha de fazendeiros , professora que separou do marido nos anos 50/60, quando a mulher separada era considerada prostituta. A mãe de minha mãe, casou-se cedo provavelmente com um homem que não amava, teve duas filhas, ficou viúva jovem e influenciada pelas irmãs ficou amante e amásia de um fazendeiro negro com quem teve outros filhos e deixou as filhas para serem criadas por outras famílias. Nunca contou sua história, talvez seu segundo homem tenha sido o que ela realmente amou e apesar de ter filhos mulatos, nos contava que tinha tido somente um marido , o pai de minha mãe. Eu nunca a contradisse, respeitei sua dor ,sua amargura. Mas quanta resignação... trabalhou a vida inteira como cozinheira e morreu cozinhando, era a bondade em pessoa. Minha avó paterna ficou órfã de mãe com 3 anos , e tinha da sua mãe somente uma lembrança, a foto da mãe morta. A herança que sua mãe  lhe deixou, foi tirada pelo seu pai, madastra e irmãs. Ela teve que lutar como costureira para educar os filhos e no grito conseguiu que seu pai lhe desse uma casa. As mulheres de minha história são fortes, nunca quis ser mulher , mas de certa forma tenho uma força da luta de todas elas e das histórias diárias de minhas pacientes.

OBS: Cara Miriam , obrigado pelo comentário, deixa o Blog vivo . Eu adoraria escrever todos os dias , além da questão política e ética, o Blog para mim é um exercício de escrita e tenho que adotar um método para a sua feitura. Questões relativas as mulheres e suas histórias  voltaram em breve , assim como dos negros e outros assuntos e concordo com o que você escreveu.

Fotos: Fabricio Matheus


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A HOMOFOBIA EM MIM




Não existe cura para o homossexualismo porque o homossexualismo não é uma doença. Mas há cura para a HOMOFOBIA. Principalmente a nossa.
O preconceito contra os homossexuais nasce do medo e da ignorância e mal informação. E nosso dever educar as pessoas com respeito e sem agressão.
Uma vez fui fazer uma palestra para Travestis e Transexuais, inicialmente todos falavam coisas glamurosas, quantos países conheciam no exterior, festas diplomáticas e etc... Quando perguntei sobre as dores e sofrimentos e finalmente , aos poucos, eles foram se revelando. Quanta dureza, quanta dor e sofrimento, quantas barreiras, preconceitos até contra grupos gays como lésbicas.Quanta solidão e quanta luta, mesmo para se prostituir no exterior... Só neste momento de dor conseguimos nos aproximar, nos humanizar.
No trabalho, quando te mostram a Playboy da Fernanda Young e você têm que achá-la gostosa, quando o máximo que você repara é numa tatuagem....
Quando o seu pai ou seu tio te dá de presente uma assinatura anual da Playboy, que você empresta para os seus amigos heteros , que você deseja mais que a revista.
Quando você precisa falar para a família que o moço é seu professor de piano e não seu namorado para trazê-lo em casa.
Quando seu namorado não pode dormir na sua casa, mesmo quando você mora sozinho porque na manhã seguinte chega a faxineira.
Quando a sua colega de turma diz que não beberá o Chopp do seu copo por quê ela pode pegar AIDS.
Quando você não sai com o colega de teatro por quê ele é muito bichinha, dá pinta e o que vão pensar de você...
Quando  chego num restaurante com um amigo e eles nos levam para o andar superior vazio alegando que o restaurante esta lotado, e o mesmo encontra-se vazio.
Quando você escuta calado, os seus pais dizerem que prefer morrer a ter um filho Gay.
Quando o meu namorado terminou comigo e estou arrasado e não posso demonstrar.
Quando meu companheiro esta doente ou morreu e eu não posso faltar o serviço, não posso chorar.
Quando é a primeira vez que você visita a família dele e a mãe dele sonha que vai receber uma visita que ela não quer, mas sua mãe diz no sonho que no final ela gostará da visita . E ela conta e pede para você interpretar o sonho na mesa de jantar....
Quando você vai pela primeira vez na casa da família dele, e os pais dele não falam nada e ficam batendo na mesa....
Quando não posso incluir meu companheiro no meu plano de saúde.
Quando no trabalho têm o women in progress, e eu trabalho, faço hora extras, viajo a serviço de última hora, dou plantão em festas e feriados....e não há o Gay in progress.
Tenho um amigo inglês que é professor de matemática e inglês. Era casado há dez anos com outro cara. Um dos seus alunos de 18 anos despertou-lhe uma paixão e ele saiu com ele só uma vez. Nem beijou. Foi expulso do colégio, proibido de lecionar no país. Teve que vender a casa que era herança de sua família e dar metade para o companheiro que também o levou na justiça e teve que recomeçar a vida em outro país e com outra língua.
Quando o meu personal trainner, após a aula diz uma piada homofóbica no banheiro e eu continuo treinando com ele e ele falando mal dos gays.
Quando  tenho que deixar de fazer alguma coisa, ou usar alguma coisa para não parecer Gay.
Quantas vezes eu tive que engolir seco e não dizer que eu sou gay.
Quando no natal no meio da ceia, o seu priminho pergunta se ele é seu amigo ou namorado.
Quando  penso:- sou formado, falo línguas, tenho pós graduação, Platinum Amex, um ótimo emprego, apartamento ...e sou Gay.
Quando sou HIV positivo, e não posso contar para minha família ou meus amigos, e não tenho ninguém para compartilhar minha dor.
Quando  não consigo contar para o meu novo namorado que sou HIV positivo.
Quando você mostra um conto ou uma poesia para o seu melhor amigo , que contêm uma história gay, e o mesmo diz que é legal mas para não tocar mais no assunto.
Tenho um outro amigo que se casou com um holandês, perdeu a nacionalidade brasileira. Depois de dez anos, separou do holandês e ficou ex-patriado na Holanda.
Quando você têm que esconder o seu guarda-chuva da Buberrys chiquérrimo, por quê a família dele vai achar que é Gay.
Quando morre alguém famoso como o Cazuza ou o Renato Russo, e alguém diz : Menos  uma bicha no mundo. E você não fala nada.
Quando você serve de farol, e os seus primos e amigos dizem que você também é Gay para eles se assumirem e você não sente orgulho disto.
Quando num país do Carnaval, num país que têm a maior parada Gay do mundo e lota hotéis e para a cidade, numa enquete do senado contra a Homofobia , ganha a lei contra a homofobia.
Tenho um amigo policial, que é gay e têm que bater em gays e travestis na delegacia .
Quando você depois dos 35, ainda têm que explicar por que não se casou...
Quando você têm que mostrar que entende de futebol ,se você prefere ballet.
São tantas histórias e tantos Quando. Mais cabe a mim, a você e a nós SUBVERTER a equação – HOMOFOBIA: GAY = DOENTE, SOLITÁRIO E INFELIZ.


Foto e colagem : Fabricio Matheus

O TAJ MAHAL , O AMOR E O GAY




Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário
Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador
Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho
É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário. CBHolanda


Está história aconteceu há alguns anos, antes do Caminho das Índias, mas poderia ser hoje. Estava viajando pela Índia, já tinha passado por Delhi, Jaipur, Fatehpur Sikri e estava no estado de Uttar Pradesh, no norte , precisamente na cidade de Agra e iríamos visitar o Taj Mahal, o mais conhecido monumento do país, a mais expressiva obra da arquitetura Mughal.
O Taj Mahal considerado a maior prova de amor do mundo, descrito como “Uma lágrima no rosto da humanidade”, símbolo do AMOR, é um masoléu , significa: A Coroa de Mahal, foi erguido entre 1630 e 1652 pelo Imperador Shah Jahan em memória de sua esposa favorita Aryumand Bano Began, conhecida como “A jóia do Palácio” ou Montaz Mahal, falecida ao dar a luz o seu décimo quarto filho. O edifício foi construído com o mais fino e puro mármore branco local, contendo inscrições do Corão e incrustado com pedras semi-preciosas como Jade e Cristal da China, Turquesas do Tibet, Lápis-lazulis do Afeganistão, Agathas do Yemen, Safiras do Ceilão, Ametistas da Pérsia, Corais da Arábia Saudita, Quartzo do Himalaia e Âmbar do Oceano Índico.
Todos estávamos exitados e felizes; e no caminho até o monumento, inventamos de brincar de adivinhar. Uma pessoa pensava uma coisa e tínhamos que adivinhar o que a pessoa pensará, com algumas dicas. Quem acertasse a resposta,  seria a próxima pessoa a pensar a palavra a ser adivinhada.A brincadeira transcorria com alegria e risadas infantis. Até que quem acertou e pensou a próxima palavra era uma juíza, um pouco estranha, distante , não se misturava com o grupo, sempre isolada. Nos surpreendeu ao participar do jogo de adivinhação.Começamos a tentar adivinhar o que a Juíza pensará, e por mais que ela desse dicas, não conseguíamos. E ela continuou: É uma coisa feia... É uma coisa degradante.... É uma coisa nojenta.... Falamos barata e outros insetos e nada. E ela continuava:É uma coisa que deveria ser pisada...É uma coisa que não deveria existir na face da terra.... E nós respondendo: Violência, Guerra, Preconceito... e nada... O clima começou a ficar tenso, pois pensávamos se tratar dos negros e guetos ...e nada...Até que ela decidiu parar a brincadeira. Simplesmente disse: Não brinco mais. Falamos que ela só poderia sair se dissesse o quê havia pensado. Depois de relutar, ela concordou e disse: É o Viado.Tão negro e grande foi o nosso silêncio, que uma colega estupefata respondeu: Mas por quê o veadinho, o quê que o pobre do animal têm a ver com isso... Ela respondeu seca: Não é o animalzinho, é o homossexual, a bichinha, o gay....
Já havia conversado algumas vezes com ela no café-da-manhã, curioso sobre sua posição sobre o Aborto, a Eutanásia e outros assuntos polêmicos e ela respondeu-me que quando se tratava desses assuntos, por ser religiosa, ela não conseguia julgar e preferia passar o caso e se omitir.
O clima ficou tenso no ônibus, na primeira parada, as pessoas vieram me consolar,  conversar comigo para que  eu não me chateasse. Entre elas, tinha uma cujo filho e irmão eram gays.Neste meu silêncio abissal, e talvez choque do inesperado. Eu  vi  doído meu profundo preconceito e minha frágil defesa. Aos poucos, fui conscientizando que a ofensa era diretamente a minha pessoa. Ali no caminho do Taj Mahal, eu vestido de indiano, careca, fui vítima do preconceito de uma juíza, cujo pensamento representa no mínimo sessenta por cento do pensamento dos magistrados do nosso país.Ali no norte da Índia, eu decidi que passaria minha vida a lutar contra os preconceitos e começaria pelos meus preconceitos. Ali eu aprendi quem eu era , quem eu deveria ser, e o mais importante, que eu deveria ter orgulho de mim e me amar.
Para minha surpresa, assim que chegamos e descemos do ônibus, pensaram que eu era um monge e ofereceram-me um camelo, assim, cheguei montado, como um verdadeiro deus indiano, uma divindade  . No caminho pelos jardins , fontes e o Pálacio, as pessoas vinham me abraçar, cumprimentar e pediam para serem abençoadas.....
Quando o sol se pôs, tingindo o Taj Mahal de diferentes cores crepusculares,  diversos matizes espectrais, com o reflexo no rio Yamuna.Sentei-me só ,no canto esquerdo posterior, junto a um dos minaretes e fui invadido por uma força estranha, indescritível. Não era paz, nem consolo. Talvez um abraço de Deus, ou o despertar do Deus que em mim habita, ou simplesmente a força da vida. Uma energia , um êxtase de se descobrir, um quantum de luz, uma centelha, talvez a iluminação, talvez o Amor... talvez ... ainda não sei... definir, algumas vezes ainda consigo sentir...mas como canta  o Jorge Bem Jor “Foi a mais linda história de Amor”.

OBS: No site do Senado Federal há uma enquete sobre a Lei que tramita no Congresso e que PUNE os crimes cometidos com motivação HOMOFÓBICA. Para construirmos um país verdadeiramente democrático e que as diferenças façam parte  sem exclusão acesse o site e vote SIM.

http://www.senado.gov.br/

Fotos:Fabricio Matheus